Mudança de treinador deu em recorde europeu

Canova, ao centro, a explicar umtreino

Esta manhã, o norueguês Sondre Nordstad Moen ganhou a Maratona de Fukuoka em 2h05.48 batendo o recorde do Velho Continente, tornando-se o primeiro maratonista europeu a correr menos de 2h06 em 42.195 m.
Renato Canova é o treinador de Moen há poucos anos, e o italiano Alberto Stretti (albertostretti.org) teve oportunidade de falar com ele sobre a corrida, que decorreu com “uma temperatura perfeita, de 14,1 a 14,7 C e humidade entre 55% e 57%. Um vento fácil que ajudou os atletas.”
Fazendo notar que apenas treina o atleta norueguês “há cerca de um ano, e estou satisfeito porque agora ele entendeu muito bem a minha maneira de treinar. Ele funcionou hoje nos últimos 12,195 m a 2,55 min de média sem nenhum problema”.
Canova não se inibe em dar conta do treino feito. “Ele trabalhou no verão em montanhas na Itália, em Sestriere, por 50 dias, correndo também 220 km por semana e correndo também 45 km de corrida contínua uma vez. Fiquei impressionado com sua opção de vida, para reservar um apartamento sozinho, morando e treinando sozinho durante todos os dias. Depois da Meia Maratona de Valência, ele veio para o Quénia comigo para um segundo período de trabalho. Há 10 dias, tivemos um pequeno problema num treino que teria 40 km, quando voluntariamente o detive depois dos 33 km, porque me pareceu muito cansado e estranho.
Ele fez muitas vezes exercícios em torno de 27 km / 30 km. Por exemplo, ele fez um dia 7×3000 m, todos abaixo de 9 min, com um km de recuperação em 3,25. A diferença entre ele e os quenianos é que eles poderiam correr mais rápido com uma recuperação mais lenta, enquanto ele prefere manter o que disse. Ele fez exercícios também na pista, por exemplo: 2×3000 m, 3×2000 m, 5×1000 m, 6×500 m, num só dia.
Sobre o futuro, Canova refere que defende que ele corra apenas uma maratona por ano. “Gostaria de vê-lo competir no Mundial de Meia Maratona de Valência 2018, e então gostaria de melhorar a sua velocidade base. Eu não posso dizer o quão rápido ele pode correr. Por agora estou realmente feliz porque ele melhorou o seu ritmo em torno de 10-15sec. Em 2018, eu gostaria de melhorar a sua velocidade de corrida por mais 2 segundos por km”.

Como começou o trabalho para este resultado

Sendo um jovem talentoso, com 17 anos correu 5000 m em 14.20, Sondre Moen chegou a ser treinado por Frank Evertsen, técnico banido do atletismo, após um relatório sobre algumas situações que foram dadas como provadas, nomeadamente por falsa documentação médica que lhe permitia acesso a várias substâncias, como hormona de crescimento, cortisona, adrenalina, encontradas na sua residência, e declarações de vários atletas com autorização para utilizar medicamentos para a asma (contudo, nunca se provou que tivesse sido atletas de alta competição). Recebeu ainda uma sentença com pena de prisão.
Num fórum de corrida, Canova explica como se iniciou esta parceria.
“Eu já conhecia Sondre (e Sindre Buraas) há algum tempo, desde que eles começaram a fazer períodos de quatro semanas, aproximadamente, no Kerio View Hotel, in Iten, onde tenho a minha própria casa e base de treino.
Em 2015, no início de Outubro, Sondre enviou-me um email, perguntando se eu estaria interessado em treiná-lo, uma vez que o seu treinador deixara de treinar (e nós sabemos a razão).
Aceitei a tarefa mediante algumas condições, para mim essenciais:
1) Uma vez que eu não acredito que superioridade dos corredores africanos não é de ordem genética, mas mais pelo ambiente diferente e pelas condições de treino (altitude, grupos grandes, sem limites mentais, melhor conhecimento do próprio corpo, etc.), eu disse-lhe que ele tinha de se tornar ‘queniano’, com longos períodos de altitude e com um melhor conhecimento do próprio corpo.
2) Eu queria motivação total, acreditando no projecto. Ele já tinha corrida uma maratona em 2.12 e não esteve mal no Rio (19º em 2:14), mas os seus recordes pessoais em distâncias mais curtas eram muito antigos. Por isso coloquei como objectivo primordial uma melhoria da velocidade nas distâncias curtas, para conseguir uma diferente base de velocidade com foco numa das grandes maratonas.
3) Para acreditar apenas no treino. Eu não quero que os meus melhores atletas tomem quaisquer suplementos, aparte maltodextrina, quando vão para sessões longas de corrida. Eu quero que os atletas permaneçam mentalmente fortes, acreditando neles próprios como pessoas, não acreditando em ajudas externas, que criam barreiras mentais.
4) Para me dar um feedback total do seu treino quando não estou com ele. Neste ponto de vista, um atleta europeu tem larga vantagem sobre um atleta africano (aparte algumas excepções como Eliud Kipchoge), porque para ele é natural usar o computador para escrever o seu treino, o que sentiu, e todas as situações que devemos analisar (algo que os atletas africanos não costumam fazer, sendo essa a grande diferença que se nota quando estou pessoalmente com eles, ou quando executam sozinhos o meu programa, mesmo que estejam a ser assistido pelos meus adjuntos).”

 

Sondre Moen, em Fukuoka

 

As unidades de treino

Acertado o acordo, Canova dá conta do treino.
“Usámos Outubro para tentar perceber melhor a sua condição. No final do mês ele competiu em Valência, correndo a meia em 63.06 (13º classificado), sentindo as pernas pesadas e nada em boa forma.
Posto isso planeámos os seus períodos de altitude desta forma:
1 – De 25 de Outubro a 25 de Novembro: 31 dias em Iten (comigo lá, trabalhando em conjunto).
2 – De 1 de Janeiro a 17 de Março: período de 76 dias em Iten (apenas com uma pausa de 3 dias, de 9 a 11 de Fevereiro, para competir na meia de Ras Al-Khaima, onde fez 62.21 praticamente sozinho.
3 – De 5 a 27 de Junho: um período de 22 dias em Sestriere (2050m), antes de correr 10000 m em Ostrava, em 28 de Junho (recorde pessoal de 28:15).
4 – De 29 de Junho a 7 de Agosto: período de 38 dias em Saint Moritz (1800m), competindo algumas vezes ao nível do mar em 5000 m.
5 – De 30 de Agosto a 20 de Outubro: período de 50 dias em Sestriere, com um intervalo de 3 dias (8 a 10 de Setembro) para correr 10 km em estrada, em Praga (27.55, recorde pessoal).
Isto significa que, antes da prova de Valência, onde baixou da uma hora, treinou 217 dias em altitude, mudando os seus parâmetros fisiológicos (agora os seus valores sanguíneos são muito idênticos aos dos quenianos que sempre viveram em altitude).
Os objectivos deste programa eram claros:
a) Grande volume durante o inverno, para correr uma maratona na primavera (Hannover) apontando para uma marca abaixo das 2h10 (mas ele terminou em 2:10.07, devido a problemas no estômago).
b) Aumento da velocidade, tendo em conta os mínimos para o Mundial de pista (primeira opção em 10.000 m, a segunda em 5.000 m). Neste âmbito, no final de Junho ele não estava pronto para fazer 27.45, e Ostrava não foi a melhor corrida para o fazer mas era a única hipótese). Olhámos então para a segunda opção, e conseguimos atingir o mínimo em Heusden, correndo em 13.20.16 (22 de Julho), marca que ele não acreditava ser possível até um mês antes (fomos a Heusden pagando do próprio bolso a viagem e a estadia acreditando que era possível correr abaixo de 13.22, os mínimos para os mundiais).
c) Após a experiência do Mundial, a ideia foi começar a preparar de imediato uma maratona em Dezembro, passando pela meia maratona de Valência. Isto significou que começámos a trabalhar apenas 20 dias depois dos mundiais, tendo um pequeno intervaol para fazer duas corridas de 5000 m (a primeira nos nacionais, a 25 de Agosto, onde andou à frente de Jakob Ingrebritgsen até à volta final, para ser segundo 13’39”92, e a segunda em Rovereto, a 29 de Agosto, onde fez a sua segunda marca de sempre, 13’30”47).”

 

Excertos do treino

Dando ênfase ao resultado em Valência, um site ligado à corrida norueguês, publicou um excerto do trabalho de Sondre:
Sexta, dia 15 (Sestriere, pista):
2 x 3000m (recuperação 2’55”), em 8’58″1 – 8’58″3 (rec. 2’54”) +
3 x 2000m (rec. 2’55” >< 2’57”) em 5’56″0 – 5’57″3 – 5’56″2 (rec. 2’55”) +
5 x 1000m (rec. 1’54” >< 1’56”) em 2’51″3 – 2’54″4 – 2’54″1 – 2’53″9 – 2’54″6 (rec. 1’58”) +
6 x 500m (rec. 1’25” >< 1’30”) em 1’22″1 – 1’22″5 – 1’20″4 – 1’19″4 – 1’19″5 – 1’20″4
Segunda, dia 18:
12 km montanha (Cesana – Sestriere, de 1350m até 2050m altitude, com 700m de desnível) em 44’23”
Terça, dia 21: 45 km em Valle Argentera (1700 < 1800m), em 2:41’08” (média a 3’35”)
Sábado, dia 23: 50′ fartlek (15 vezes, 1′ rápido – 1′ moderado + 20 vezes 30″ rápido – 30″ moderado) (15.9 km, média 3’08″4)
Quinta, dia 26 (Bloco especial):
Manhã (Valle Argentera): 10 km em 33’16” + 12 km in 36’35” (média 3’03”)
Tarde: 10 km em 37’10” + (pista) 15 km com 6 x 1000m em 2’48″2 >< 2’55” recuperação em 200m fácil para 61″ >< 66″ + 10 x 600m em 1’42″8 >< 1’45″1 recuperação de 200m fácil em 64″ >< 70″ (total do dia: 47 km).