Doping na ordem do dia…

Dennis Mitchell (à esquerda) já foi despedido por Justin Gatlin

As questões do doping voltaram em força nas últimas semanas e especialmente nos últimos dias. Mas este assunto já anda em parangonas desde 2016, ano em que a Rússia sofreu as primeiras sanções, com proibição de atletas seus competirem nalgumas modalidades sob a bandeira do país, atendendo a que se tornavam cada vez mais evidentes as provas de manipulação de doping num esquema generalizado, alegadamente suportado e proposto pelo governo.

O atletismo foi das primeiras modalidades a sancionar os russos com a suspensão competitiva, aceitando, pouco a pouco, que alguns atletas participassem nas competições, mas sempre em representação individual.

Este ano as sanções mantiveram-se (para além de questões técnicas, como uma nova legislação, uma nova agência anti-doping e ainda laboratórios independentes, a questão política de a Rússia não reconhecer esse esquema, ainda que tenha alterado as suas leis e estruturas de acordo com as exigências da Agência Mundial Anti-Doping (WADA), como se leu no sítio da IAAF, que melhorou os formulários de pedidos de competição de atletas neutrais, e já passou para mais modalidades com a suspensão da Rússia das modalidades dos Jogos Olímpicos de Inverno (devido a um escândalo complementar com epicentro nos anteriores Jogos em Sochi).

Quenianos ao “barulho”

Entretanto, a adensar as suspeitas sobre o Quénia, também a campeã olímpica Jemima Sumgong era apanhada nas malhas do doping, sancionada em quatro anos, conforme se apura no “BBC Sports”, e em Espanha revelava-se o caso de Ilias Fifa, detido (e depois libertado), por alegadamente estar envolvido na distribuição de substâncias dopantes, em notícia do jornal “Marca”.

No seguimento destas notícias, a edição norte-americana do “Huffpost”, num artigo sob o título “Olímpicos dos Estados Unidos também fazem batota, só que o fazem com ‘acento’ ”, aponta-se, após as revelações da meio-fundista norte-americana Kara Goucher, denunciando suspeições sobre as práticas de treino e incentivo ao consumo de suplementos por parte de Alberto Salazar para o seu grupo de treino, concluindo-se que, “se a Rússia tinha um esquema de doping estatal, nos Estados Unidos o esquema é privado e corporativo”!

De Froome até Gatlin, de novo

Depois, como que em cascata, como se pode ler em artigo do “Diário de Notícias“, Chris Froome, o ciclista que venceu quatro vezes a Volta à França, incluindo a de 2017, testou positivo, numa análise feita durante a “Vuelta a Espanha”, à substância salbutamol, um broncodilatador. Ele e os seus representantes asseguram que sofre de asma e tem autorização para o medicamento.

Ainda não tínhamos digerido todas estas notícias e cai nas redações a notícia da investigação oculta do “The Daily Telegraph”, com suspeitas de que o treinador de Justin Gatlin, Dennis Mitchell (também ele um antigo condenado por doping) e um agente, Robert Wagner, estariam por trás de um esquema de oferta de medicamentos que melhoram o desempenho dos atletas. Isso é o que se depreende da reportagem, com os atletas disfarçados que estiveram no campo de treino de Mitchell a revelarem que Mitchell e Wagner se ofereceram para fornecer e administrar testosterona e hormona de crescimento um treino de actores para um filme. Os produtos deveriam ser fornecidos através de um médico na Áustria – que é o país de onde Wagner é natural- e a taxa total para o projecto era de 187.000 libras (212.109 euros!).

Enquanto já foi anunciada a abertura de um inquérito pela Unidade de Integridade do Atletismo (AIU), criada pela IAAF, e a Agência Antidopagem dos EUA (USADA), Gatlin já despediu o seu treinador e, pelo “Instagram” disse que estava “chocado e surpreso” com as alegações feitas contra seu treinador. “Eu o despedi assim que descobri sobre isso”, disse, afirmando ainda que nada mais vai dizer sobre o assunto, que está a ser investigado legalmente, e que futuramente “eles [supostamente, treinador e agente] ouvirão palavras da parte do meu advogado”.
De acordo com a mesma notícia, que apanhámos no “Athletics Weekly”, o agente de Gatlin nos últimos 14 anos, Renaldo Nehemiah, disse que Wagner trabalhou para Gatlin “em duas ou três vezes”, dando indicação de que não era um trabalho recorrente.

E Portugal…

Finalmente, ainda estupefactos com este imbróglio, surgem notícias de que quatro atletas portugueses têm processos abertos sobre questões ligadas ao “doping”, dois deles por faltas no sistema de localização ou falhas burocráticas (e como esta burocracia é uma tortura ainda pior que as declarações de IRS…)

Uma carga negativa do atletismo, que, atendendo às estatísticas apresentadas pela Autoridade Antidopagem de Portugal (ADOP), referentes ao ano de 2016, de todo não merece. Assim, em 3826 amostras recolhidas em Portugal (320 eram referentes ao atletismo), registaram-se 38 casos positivos, das quais 5 eram responsabilidade do Sistema de localização. E nestes casos positivos, apenas entrou um do atletismo, referente ao sistema de localização! Contudo, esse caso e respectiva sanção, ou absolvição, não consta na página da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA), na secção de decisões disciplinares.

Os próximos dias (semanas ou meses…) servirão para apurar mais alguns pontos em todos estes casos.