Sporting bisa título europeu de crosse

A festa de todas as equipas do Sporting no final (foto Marcelino Almeida)

A vila de Mira o regresso aos «momentos de glória lusitana na Taça dos Clubes Campeões Europeus de Corta-Mato, graças aos dois triunfos colectivos do Sporting, nas provas principais. Para não destoar, o Benfica também fez uma “gracinha” em juniores, sendo vice-campeão. O estágio no Algarve e a coerência táctica mostraram o pormenor com que o triunfo foi preparado.

Uma manhã magnífica em Mira ajudou bastante público e atletas para mais uma edição da Taça dos Clubes Campeões Europeus de Corta-Mato, com a alegria imensa a transbordar por todos os que estiveram envolvidos na prova. No final, Jessica Augusto sabia resumir o apoio que o público lhes tinha destinado: «Mira vestiu-se de verde!».

E assim foi. O público presente ao longo do percurso (infelizmente com boa visibilidade geral) não se cansava de incentivar os portugueses e isso foi evidente desde a primeira prova à última, com particular ênfase nas seniores femininas já que o Sporting esteve sempre entre as 15 primeiras da corrida.

 

Jessica Augusto

 

Com uma equipa soberba, autêntica selecção nacional, o Sporting apostou no colectivo, deixando alguma liberdade às suas atletas mais proeminentes, e estas cumpriram. Apesar de uma má partida, Jessica Augusto esteve excelente e quase chegava ao triunfo, depois de ter recuperado bastantes lugares a partir da segunda volta da prova, para ser apenas surpreendida por uma polaca, Katarzyna Rutkowska, campeão do seu país de 10.000 m em 2016 e 2017, que se isolou no último obstáculo, partindo decidida para uma vitória que a sua classificação no europeu de Dezembro (31ª) não vaticinava.

Portuguesas em bloco

Quilómetro a quilómetro, as portuguesas foram ganhando consistência, com um trio composto por Sara Moreira, Inês Monteiro e a bielorussa Svietlana Kudzelich a lutar na cabeça do pelotão, terminado todas até ao oitavo lugar e ainda tiveram Salomé Rocha e Catarina Ribeiro, entre as 12 primeiras! Arrasador.

Curiosamente, Sara, Kudzelich e Jessica, foram as únicas leoas que se sagraram campeãs europeias por clubes em pista e corta-mato.

As leoas campeãs europeias

Com esta competência, o Sporting triunfou com vantagem sobre as espanholas do Bilbau, que tiveram em Ancuta Bobocel (3ª) e Trihas Gebre (4ª) as suas melhores atletas, com as turcas do Bursa Beleddye foram terceiras. As campeãs do ano passado, sem a queniana Irene Cheptai, foram apenas quintas, atrás das polacas do Podlasie Bialystok.

No final da competição, Inês Monteiro afirmou, «está feito!», e ainda diria que lhe tinham «tirado uma tonelada dos ombros», numa alusão a um título colectivo suado e merecido. Já para Sara Moreira, capitã da equipa do Sporting, este «foi um dia de sonho, com uma equipa de sonho, que me deixou emocionada. Este era o grande objectivo da época, e depois da aposta do clube nós tínhamos que retribuir. A aposta foi ganha».

Um sentimento repartido com a melhor portuguesa, Jessica Augusto, que afirmava estar contente e com «com missão cumprida, num percurso que é um espectáculo, mas que me condicionou por ter partido mal. Só no final da segunda volta consegui entrar no meu ritmo. Foi uma corrida emocionante, pois Mira vestiu-se de verde e era toda a gente a puxar por mim. A polaca apenas me fugiu no último obstáculo, mas se a corrida tivesse mais uns quilómetros o desfecho não seria assim. Há outra alegria que reparto com a Sara Moreira e a Svetlana, que é o de sermos as únicas que fomos campeãs europeias de clubes na pista e no corta-mato!»

E a bielorrussa, num “curto” inglês acenava com a cabeça, «afirmando estar feliz por poder ajudar o Sporting a ser campeão europeu».

Um triunfo queniano ajuda ao 15º título

Já nos homens, o seu título foi mais surpreendente, pois embora estivesse em Mira a defender o segundo lugar alcançado na época passada, os favoritos eram a formação do Bikila, com alguns dos melhores especialistas espanhóis, e os turcos do Istambul, também apresentavam grande parte da sua equipa que defendia o título.

Davis Kiplangat

Mas a verdade é que o Sporting soube apostar na sua equipa, com o jovem queniano Davis Kiplangat, que não deixou para o final o seu trabalho, conseguindo vantagem bem antes da última volta para conseguir um triunfo fácil sobre o belga Isaac Kimeli, campeão europeu sub23 em 2016, e sobre o turco Ramazan Ozdemir (4º no ano passado).

Depois foi o taticismo do Sporting, com o veterano Rui Pedro Silva a mostrar toda a sua experiência, conseguindo um importante sexto lugar, enquanto mais para trás Rui Teixeira e Licínio Pimentel (atleta originário da região, a correr em casa), ganhavam importantes lugares, já que Bruno Albuquerque não conseguia fugir da 20ª posição e Alberto Paulo viria mesmo a desistir.

Desta forma foi conquistado o 15º título do Sporting, 24 anos depois do seu último triunfo! Ainda mais surpreendente foi o segundo lugar dos belgas do Olympic Halle, que se impuseram aos espanhóis do Bikila, com os campeões do ano passado, os turcos do Istambul BBSK, fora do pódio.

Davis Kiplangat, embora percebendo inglês, quase não falava e apenas se mostrava radiante com o triunfo coletivo, contagiado pela alegria reinante, da qual era porta voz Rui Pedro Silva. «Eu estava a fazer uma corrida com olhos na frente, num percurso duro, para poder fazer o melhor, o que foi possível com toda esta gente a apoiar-nos e a gritar o nosso nome».

Um apoio sentido especialmente pelo atleta de Mira, Licínio Pimentel, capitão de equipa, que estava radiante com uma «vitória arrancada a ferros, mas que foi planeada desde o primeiro momento. Mas não fomos só nós, que corremos. Esta vitória deve-se também ao clube que fez uma aposta para que o atletismo voltasse a viver momentos de glória».

Os leões conquistam 15º título

Um trabalho de competência

No final das provas, Carlos Silva, coordenador do atletismo do Sporting, apenas afirmava que se tinha ultrapassado uma etapa, «com uma equipa que tem espírito de missão, com objectivos bem definidos, com trabalho para os alcançar».

E acabou por afirmar que, «aqui foram alcançados dois títulos europeus. Cada um à sua maneira, mas um título europeu é difícil de conseguir, é como tirar um 20 na escola! A vitória é um merecido prémio de todo um trabalho que foi feito e que me deixa um técnico feliz por trabalhar com todos estes atletas, que demonstraram alegria e competência».

Por fim, Carlos Silva tinha ainda um agradecimento especial, «ao presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, e ao vice-presidente, doutor Rui Caeiro, pela confiança que mostraram no projecto do atletismo, afinal, uma modalidade que sempre deu títulos europeus ao clube».

Benfica quase excelente em juniores

As provas para os mais jovens trouxeram a surpresa de uma impressionante corrida do Benfica, em masculinos. Motivados, os benfiquistas quase contrariavam o favoritismo dos espanhóis do Playas de Castellon, que venceram a prova com um total de 30 pontos, com excelente triunfo do seu atleta Aaron Las. Já os portugueses tiveram no triatleta Vasco Vilaça (campeão europeu e vice-campeão mundial júnior de triatlo) o seu melhor elemento, que quase surpreendia ainda mais todos os outros corredores.

Benfica, vice-campeão europeu de juniores

«O triatlo dá-me a resistência para uma prova de corta-mato, que é mais dura e onde é preciso dar um pouco mais de nós. Sendo dos melhores internacionais mundiais no triatlo na minha idade, habituado a andar na frente, não me amedrontei e, na verdade, eles ficaram surpreendidos porque não sabiam quem eu era!», afirmou a MelhorMarca.pt o jovem benfiquista.

Já em femininos, esteve a equipa que menos se destacou em Mira, pois as juniores do Sporting apenas conseguiram o sexto lugar coletivo (com a sua melhor atleta, Beatriz Rodrigues, em 20º), atrás das turcas. Aqui, quem surpreendeu foi a equipa dinamarquesa do Sparta, que tinha como “ponta-de-lança”, Anna Mark Helwigh, que repetiu a vitória de 2017.

Para Beatriz Rodrigues, a estreia na taça, como melhor portuguesa, deixou-a «muito feliz. Este lugar trás uma vontade de querer mais e sonhar mais. Deixa uma vontade de competir ainda com mais motivação para os objectivos que temos para esta época».

Beatriz Rodrigues

 

Texto: António Manuel Fernandes; Fotos: Marcelino Almeida