O balanço vindo de Birmingham’2018

A final dos 60 m barreiras masculinos (foto Getty Images for the IAAF)
Por Pedro Pires, em Birmingham, especial para MelhorMarca.pt

Desde a última vez que escrevi, muita coisa aconteceu e o balanço dos campeonatos é no final bastante positivo. Falando um pouco dos temas principais destes campeonatos no global:
Marcas

Com cinco recordes de campeonatos mundiais indoor e um recorde mundial indoor, várias prestações de altíssimo nível e com uma densidade de resultados de grande qualidade do melhor que já se viu, o saldo só pode ser positivo. Os campeonatos até começaram de forma morna, com duas provas de salto em altura “a despachar” e estranhas, mas o dia seria salvo pelos 3000 metros no feminino, na que seria a primeira das duas medalhas de ouro de Genzebe Dibaba em Birmingham’2018. Sexta-feira já tivemos um dia com bastante qualidade, com os destaques a serem o fantástico concurso de salto em comprimento e a exibição de Murielle Ahouré nos 60 metros, a mais rápida dos últimos 8 anos! No terceiro dia, tivemos claramente o dia mais forte da competição.

Os bons momentos foram uma constante em todas as provas (sem excepção), com os destaques a irem para os recordes dos campeonatos no lançamento do peso (Tom Walsh), salto com vara (Sandi Morris), 60 metros com barreiras no feminino (Kendra Harrison) e 60 metros planos no masculino (Christian Coleman). Também o heptatlo apresentou emoção até ao final, com os dois primeiros atletas separados apenas por 5 pontos. No domingo, último dia do evento, os destaques foram as duas provas de estafetas, com recorde de campeonatos para as norte-americanas e recorde mundial para os polacos nos 4×400, e a prova de 800 metros no feminino também foi destaque por termos tido todo o pódio abaixo dos 2 minutos e o tempo mais rápido desde 2011.

Desqualificações

Já tinha sido um tema abordado anteriormente no nosso primeiro artigo, mas o “problema” ainda se agravou mais. O caso mais extremo terá sido o do espanhol Oscar Husillos que correu os 400 metros em 44.92, o que seria um recorde dos campeonatos, recorde espanhol, recorde europeu e o colocava como o 6º homem mais rápido da história da distância. Mais tarde, e já depois de posar para as fotos oficiais junto do recorde dos campeonatos, Husillos viria a ser informado, ao mesmo tempo que nós o éramos na bancada da imprensa, através dos monitores que informavam a sua desqualificação por pisar fora do seu corredor. Um duro golpe que atingiria também o que seria o medalhado de prata, com recorde nacional dominicano, Luguellin Santos!

O que se seguiu nas redes sociais a seguir foi um episódio lamentável do nosso desporto: desde atletas, ex-atletas, jornalistas, pessoas com cargos a nível federativo…todos queixando-se que isto estava a dar cabo do desporto e que deixassem “os atletas fazer o que melhor sabem”.

Acontece que há regras e o próprio Husillos mostrou-se totalmente devastado depois da prova, mas aceitou que o erro foi de sua parte e afirmou que ao menos agora sabia que pode correr em 44,92 indoor, prometendo algo grande para os Europeus de Berlim. No último dia, ainda tivemos direito a desqualificações e perdas de medalhas nas estafetas 4×400 das mulheres.

As reclamações, entretanto, continuam pela internet fora. Os norte-americanos, que, como se sabe, adoram espectáculo e nem querem muito saber de regras e regulamentos, são os mais ruidosos nas críticas.

Ambiente/Organização

Em termos de público, é unânime que foram uns campeonatos espectaculares para os atletas com apoio constante, mesmo em provas onde isso não é tão comum no atletismo. Recordamos, por exemplo, o último lançamento de Tom Walsh no peso, que teve todo um estádio (pavilhão) a puxar por si e centrado apenas nesse lançamento, que lhe viria a dar o recorde dos campeonatos! Se no primeiro dia, o pavilhão mostrou bastantes clareiras – as condições climatéricas tiveram o maior impacto – o segundo dia já apresentou um pavilhão praticamente cheio e no Sábado e Domingo a rebentar pelas costuras. Os ingleses adoram o atletismo, vivem-no como poucos no mundo e é por isso que tantos grandes eventos ocorrem aqui e não por uma questão de favoritismo, como se possa pensar.

A organização funcionou praticamente na perfeição dentro do pavilhão e não se registaram grandes anormalidades face ao que se esperava. Já no que diz respeito ao apoio aos atletas, no geral foi positivo, mas viveram-se situações complexas, principalmente no segundo dia do evento, quando os transportes estavam impedidos de funcionar em Birmingham, forçando alguns atletas a caminhar distâncias curtas, mas complicadas, pelas condições climatéricas que existiam.

A primeira vez de quem já era estrela – tudo no feminino!

Kendra Harrison (nos 60 metros com barreiras), Sandi Morris (no salto com vara), Anita Marton (no lançamento do peso), Ivana Spanovic (no comprimento) e Katarina Johnson-Thompson (no pentatlo) já eram nomes grandes no atletismo, mas só aqui em Birmingham’2018 alcançaram o seu primeiro Ouro global. Christian Coleman (60 metros) também já era um nome por demais conhecido, mas é um jovem que nunca havia chegado como um dos favoritos a um evento global, então não se enquadra nesta categoria. O que significará isto para estas atletas? Não sabemos, mas pode ser o começo de algo grande e uma menor pressão para enfrentar o que por aí vem. Kendra Harrison, em palavras exclusivas no final da prova de ontem onde bateu o recorde dos campeonatos, confessou-nos que até foi um alívio para ela chegar a Birmingham depois de uma derrota (nos nacionais norte-americanos), não sendo, assim, favorita desta vez. E tal como ela reconheceu “as derrotas tornaram-me mais forte e hoje sou uma pessoa bem mais confiante”.

No final da conversa, especialmente para MelhorMarca.pt, deixou uma mensagem para Portugal:

Quando um Bronze sabe a pouco

Foi o que se passou ontem com o Bronze de Nelson Évora. Saltou mais do que nunca em Pista Coberta (17.40 – recorde nacional), esteve na frente do concurso e viu a Prata ser-lhe roubada por 1 centímetro e Will Claye levar o Ouro com apenas mais 3 centímetros do que ele. As declarações de Évora já foram por demais reproduzidas na imprensa nacional, mas só quem esteve no pavilhão pôde ver a reacção inicial do atleta e percebeu o seu misto de sentimentos. Feliz pelo que fez, acima do seu melhor de sempre, mas frustrado por não ter chegado para mais do que uma medalha de Bronze.

O momento de consagração de Nelson Évora visto do posto de Pedro Pires