Meia Maratona de Lisboa sem ponte mas com qualidade

Uma ponte vazia... ao fim de 28 anos

Sem tempo para fazer a crónica da prova para o nosso site, aproveito agora para transcrever aqui o trabalho que fiz para o Record e que foi publicado na passada segunda-feira. para ficar registado.

Embora há muito estivesse planeado, o plano B provocou uma azáfama que a organização acabou por superar! Desde a medição do percurso (com dois medidores oficiais e o director da prova a trabalharem na noite de sexta-feira até às 3 horas da madrugada), até às alterações de estruturas de apoio e de uma brigada nova de limpeza da zona de partida (transferida de Almada para Lisboa), convocada em pouco mais de 24 horas!

Foram momentos de esforço que Carlos Móia comparou com a primeira edição da “meia”, concluindo, “que apesar de tudo, agora foi muito melhor, graças à experiência da equipa”.

Uma elite com triunfos surpreendentes

A corrida masculina de elite da 28ª edição da Meia Maratona de Lisboa, apesar de todos os condicionalismos atmosféricos (porque as alterações de percurso em nada a afectavam), acabou por ser uma prova extraordinária, com dois vencedores surpreendentes, o queniano Erick Kiptanui e a etíope Etagegne Woldu.

Sendo duas corridas (que partiram separadas por 15 minutos, primeiro as mulheres) semelhantes na sua história e desenvolvimento, acabaram com qualidades diferentes.

Na prova masculina, os principais concorrentes andaram todos juntos até à “lebre“ de serviço abandonar antes do que estava previsto, “obrigando” a um reposicionamento do pelotão que ficou durante muito tempo com 17 corredores, especialmente até à queda de Edwin Kiptoo (excelente reacção de quem conduzia o carro relógio para evitar embater no atleta), que depois originou um “chega para lá” entre dois corredores, que ficou por ali, e assim se mantiveram até ao quilómetro 17, altura em que faziam o retorno para a meta, que foi o momento escolhido pelo queniano Erick Kiptanui para atacar, ele que perdeu algum tempo a atar os sapatos ainda antes do 12º quilómetro, e que entretanto recuperar.

Uma estreia de sucesso

Sem nunca ter corrido a distância anteriormente esta foi uma estreia de sonho para Kiptanui, que ficou a seis segundos de baixar da uma hora (1:00.05 horas), batendo o eritreu Yohanes Gebregergish e o também queniano Morris Munene Gachaga, por 11 e 12 segundos, respectivamente, ambos com recordes pessoais.

Erick Kiptanui o vencedor

Foram os três primeiros de um grupo de 12 atletas que cortaram a meta abaixo de 61 minutos, sendo 17 os que correram abaixo de 62 minutos!

No final da competição, Kiptanui mostrava-se “muito feliz com este resultado”, cujo momento alto da carreira anterior era a vitória na S. Silvestre de Madrid, em Dezembro passado. “Queria agradecer à organização ter-me convidado e acreditar nas minhas possibilidades. Penso que nas próximas corridas poderei melhorar mais e, se voltar a correr aqui, certamente será por uma grande marca, pois o percurso é excelente”, referiu.

Um dos principais favoritos na prova, o eritreu Zersenay Tadese, recordista mundial, acabou na sexta posição, mesmo assim bem melhor do que correra no mês passado em Marugame, o Japão.

Uma tímida leoa

Ao contrário da prova masculina, a corrida feminina não conheceu marcas famosa. Aliás, até foi um dos piores resultados de sempre de uma vencedora. Também aqui andaram sete atletas juntas até ao 17º quilómetro, aí sobressaindo a etíope Etagegne Woldu, que os 21,097 quilómetros em 1:11.27 horas, derrotando as suas compatriotas Belainesh Oljira (1:11.29) e Helen Bekele Tola (1:11.33).

No final da competição, a franzina corredora etíope, de 21 anos, que bateu o seu recorde pessoal por larga margem (tinha 74.46 passou para 71.27), está agora a dar seguimento a uma carreira que lhe deu um título africano de 5000 metros em 2015, disse a Record “que estava preparada para vir aqui correr para uma marca abaixo de 68 minutos” e que ficou “contente com esta vitória numa prova de nível internacional”.

Etagegne Woldu a liderar

As sete atletas que andaram juntas até ao 17º quilómetro terminaram todas abaixo dos 72 minutos, mas longe do seu melhor, registando apenas que outra etíope, que ficou no sétimo lugar, Hiwot Ayalew, quarta classificada nos 3000 m obstáculos dos Jogos Olímpicos de Londres 2012, fez a sua estreia em meia maratona, com a marca de 71.56.

Foram os expoentes de uma competição que juntou cerca de 32 mil concorrentes, sendo 9240(números provisórios) os que cortaram a meta da meia maratona.

Os destaques portugueses

Um fortíssimo lote de atletas estrangeiros e a ausência de alguns dos melhores portugueses na 28.ª edição da Meia Maratona de Lisboa, deixaram muito abertas as vagas para uma competição lusitana pelo seu melhor representante, que acabaram por ser ocupadas pelos conhecidos Bruno Paixão (Beja Atlético Clube) e Filomena Costa (Associação Jardim da Serra), com ele a ficar longe e ela a fechar o top 10!

O alentejano, que tem vencido várias provas nos últimos meses e que se sagrou campeão nacional de maratona em 2017, completou a distância em 1:07.17 horas, marca bem inferior ao que pretendia, mas ainda assim melhorando a sua anterior prestação (3º).

No final, afirmava ser sempre “um orgulho estar presente nesta meia maratona. Consegui o primeiro objetivo, ser o melhor português, mas já não cheguei a melhorar a marca. Esforcei-me, tentei ter um ritmo forte, mas vi que não tinha ‘pedalada’ para os quenianos. Não foi possível devido às condições, mas estou de parabéns. Foi um dia excelente”.

Atrás dele ficaram, nas posições imediatas, João Antunes (S. Salvador do Campo), com 1:07.43, e Jorge Varela (Areias S. João), com 1.07.52 e Luís Macau (J. Vidigalense), com 1:07.53.
Já Filomena Costa mostrava-se satisfeita com o 10º lugar em femininos, mas reconheceu que a sua marca (1:16.43 horas), foi afetada pelo tempo.

“Não me lembro de ter corrido uma prova assim. Senti-me bem, mas sabia que não podia arriscar, e com o vento ficou tudo alterado. É um orgulho, é a primeira vez que sou a primeira portuguesa e, apesar do vento, estou muito contente”, afirmou a melhor portuguesa, que foi seguida por Mónica Silva, individual (11ª – 1:16.58) e Vera Nunes, SL Benfica (13ª – 1:17.08)

“Uma corrida fantástica”

As condições atmosféricas, destacando-se ao forte vento sentido durante toda a manhã, e alguma chuva, foram o grande impedimento para uma prova ainda de maior impacto, o que foi destacado no final da competição, por Carlos Móia.

Perante os jornalistas que acompanharam a prova, Carlos Móia defendeu a mudança de plano sobre o percurso. “Muita gente ficou triste por não se ter atravessado a ponte e hoje poderíamos estar a falar de algum acidente. A alegria é importante, mas esta foi a melhor atitude que tomámos. O plano B foi o mais difícil de tomar. Mesmo com 28 anos de experiência, fazer alguma coisa pela primeira vez não é fácil”, afirmou.

Acrescentando que apesar de tudo “houve uma corrida fantástica na elite masculina. Houve 12 atletas na casa dos 60 minutos. É fantástico, deve ter sido a melhor corrida da meia maratona, apesar de não se ter feito nada com 59 minutos. Daí o ‘se’. Se não estivesse este vento, se calhar teríamos feito 58 minutos e alguns seguramente com 59 minutos”, concluiu.

As cadeiras de rodas e a mini

O programa das provas da Meia Maratona de Lisboa conta com uma mini-maratona para todos e uma meia maratona para atletas em cadeira de rodas.

Nesta, a prova decorreu também com forte vento, com os atletas a registarem velocidades superiores a 50 km/h quando tinham o vento pelas costas!

Por isso, o recordista mundial e campeão paralímpico, David Weir, que terminou com o tempo de 45.39 minutos, chegou a pensar no recorde mundial (42.23), que conseguira em 2015 em Lisboa. “Senti-me sempre bem. Noutras ocasiões, que venci, nunca me senti tão forte”, disse a Record. O melhor português foi Alexandrino Silva (54.52).

Também contente estava a vencedora feminina, a brasileira Vanessa Cristina, que pela primeira vez venceu uma grande competição, com o tempo de 58.43 minutos. “Estou muito feliz por ter vencido aqui em Portugal”, referiu.

Na minimaratona, de cerca de oito quilómetros, registem-se os triunfos dos portugueses Sandra Teixeira, do Sporting, e de Mário Contreiras, de S. Salvador do Campo.

Resultados oficiais na página da prova

Texto: António Manuel Fernandes; Fotos: organização