Campeonatos de Portugal de corta-mato que recordo

Memórias de corta-mato

Este artigo reflecte apenas um bocadinho de história dos Campeonatos de Portugal de Corta-mato, daquela a que pudemos assistir no momento em que estava a ser feita. Fica aqui, para recordação, enquanto esperamos pela edição masculina deste ano e também da feminina.

E, também, porque houve também um pouco de nós ali, especialmente os Campeonatos de Portugal que a Associação de Atletismo de Lisboa realizou em 1989, quando lá estávamos a trabalhar.

Também partilhamos estas memórias porque mostram um pouco de gente que todos aprendemos a admirar.

As areias de Tróia

1985. Ano em que Portugal recebia a organização do Campeonato Mundial de Corta-mato, no qual também estive envolvido como juíz (de percurso…).

Fernando Mamede em Tróia

Como acontece em muitos lugares, os Campeonatos de Portugal estavam previstos para decorrer no percurso que receberia o Mundial, mas os atrasos na preparação do mesmo (que se verificaram até às últimas 12 horas da realização desse mundial…), impediram que tal se verificasse e, à última hora, os campeonatos portugueses foram deslocados para… Tróia!

Num percurso difícil, com muita areia, era um tempo em que Carlos Lopes, Fernando Mamede, Ezequiel Canário e António Leitão elevavam o nome de Portugal nos grandes crosses europeus. E eram eles os favoritos e os nomes que puxavam espectadores para essas provas.

Uma vantagem grande

E em Tróia viu-se um Fernando Mamede imbatível, a atacar desde o primeiro momento e a triunfar com quase um minuto (53 segundos) de vantagem sobre Carlos Lopes. António Leitão, que fora “apanhado” pela movimentação dos atletas, que foram avançando e obrigaram a um tiro quando o benfiquista não esperava, ficou para trás e teve que fazer uma corrida impressionante de recuperação até ao pódio.

Colectivamente, registou-se o triunfo do Sporting.

Nota de curiosidade: Semanas depois, no Jamor, Carlos Lopes sagrar-se-ia campeão mundial com 26 segundos de vantagem sobre Fernando Mamede, que seria 11º.

A eterna Rosa Mota

Em femininos, o triunfo foi para Rosa Mota, que deixou para trás Albertina Machado, com outra das favoritas, Aurora Cunha, a abandonar muito cedo.

Mais tarde, no Mundial, Rosa Mota seria 13ª, a 49 segundos da vencedora, a sul-africana, mas naturalizada britânica (para fugir ao boicote do Mundo que não deixava competir os sul-africanos devido ao “apartheid” da África do Sul), Zola Budd, que correu descalça.

Apresentar armas!

1989. Amadora. Regimento dos Comandos. Organização da Associação de Atletismo de Lisboa nuns Campeonatos com infra-estruturas como poucas vezes era visto: balneários, espaço para doping, sala de imprensa (não tendas desabrigadas ou nem isso, com que às vezes somos ainda confrontados), bom estacionamento, percurso com total visibilidade e, acima de tudo, um percurso extremamente selectivo.

E, para “agravar”, durante toda a semana chovera e a organização, da qual fazíamos parte, esteve sempre a procurar minimizar vários problemas.

Canário a voar sobre a lama

O Canário voa

Mas, no dia da prova, sem chuva, mas com forte vento, via-se um percurso como aqueles corta-matos europeus, principalmente os de França e do norte da Espanha, com piso bem duro. E, nestes percurso, havia um atleta que se destacava: Ezequiel Canário. Qual “passarinho”, Canário voava pela lama em que os outros se enterravam e quanto mais duro, mais ele voava!

Foi assim que conquistou o seu segundo título nacional, ambos ao serviço do Imortal, de Albufeira! Para trás ficaram os favoritos, os gémeos Dionísio e Domingos Castro, e o Sporting triunfou uma vez mais.

Nesse ano a prova masculina era separada da feminina e o crosse na pista dos Comandos deu a conhecer ao Mundo um atleta que surgiu de rompante, deixando claramente para trás os favoritos Rui Vieira, Pedro Cunha e Pedro Dias, começando com este triunfo nos juniores uma carreira impressionante e que hoje todos recordamos. Tratava-se do barranquenho Paulo Guerra, então no Arraiolense!

Texto e foto e foto de abertura: António Manuel Fernandes