Amador Kawauchi e sonhadora Linden venceram a Maratona de Boston

Desiree Linden: triunfo americano depois de 33 anos de jejum!

A Maratona de Boston, a mais antiga em todo o Mundo, conheceu hoje a sua 122ª edição (ver a apresentação que fizemos) e será, talvez uma das mais memoráveis, pelo menos dos últimos anos! A americana Desiree Linden, que sonhava com uma vitória, quebrou um jejum de 33 anos sem triunfos americanos e um atleta amador japonês, Yuki Kawauchi, derrotou todos os favoritos!

Com condições atmosféricas realmente más, muito vento (a soprar contra os atletas, com velocidades de mais de 25 km/h), chuva intensa e uma temperatura entre os 0 e os 5 graus centígrados, a prova conheceu algumas mudanças na frente, principalmente na prova masculina, mas também na feminina. Aliás, os concorrentes (à excepção de Kawauchi) correram sempre com agasalhos!

Comecemos por esta última (a feminina), que tinha várias atletas africanas apontadas para triunfar, especialmente a vencedora do ano passado, Edna Kiplagat. Porém, todos os comentadores norte-americanos falavam num possível triunfo americano, já que os organizadores haviam conseguido a proeza de contar com as quatro melhores maratonistas dos EUA. No fim-de-semana chegou a notícia da impossibilidade de Jordan Hasay competir, e ficava tudo nas “pernas” de Shalane Flanagan, Molly Hudle e Desiree Linden, talvez a menos “cotada” nas apostas.

Africanas “afogam-se”

A prova em si conheceu imagens brutais, com a inclemência do mau tempo para com os atletas, especialmente as africanas que se “afogaram” na prova.

Ainda assim, a etíope Mamitu Daska (com toda uma temporada de 2017 em corridas de estrada nos Estados Unidos) cedo chegou à frente e aos 30 km registava uma vantagem de 24 segundos sobre a queniana Gladys Chesir.

Muito antes, já a norte-americana Shalane Flanagan saíra da corrida para correr aos WC, mas ficou lá poucos segundos, e a sua compatriota Desiree Linden ficou um pouco para trás para tentar ajudá-la, mas cedo viu que era um dia mau para Flanagan, e foi em busca do seu sonho, de vencer a Maratona de Boston, ela que ali correu em seis ocasiões, sendo segunda em 2011!

Quebrado jejum de 33 anos começado quando Linden tinha 20 meses

Aos 35 km deu-se a volta na corrida, com Linden a chegar à frente, quando já há muito a etíope Daska colapsara e a quaniana Chesir se afundava num ritmo lento. A partir daí Linden, casada com um triatleta profissional, manteve o seu ritmo para terminar com a marca de 2:39.54, um dos mais lentos tempos de vencedora dos últimos anos (desde 1980 que ninguém era tão lento), mas com a glória de voltar a tocar o hino dos Estados Unidos no primeiro lugar. A última vez que tal aconteceu foi em 1985, quando Lisa Larsen-Weidenbach venceu em 2:34.06, Desiree Linden estava a caminho de completar 20 meses de idade!

Agora, Linden venceu a prova, e a ela juntaram-se no pódio as improváveis Sarah Sellers, uma desconhecida dos Estados Unidos (2:44:04) e a veterana (41 anos) canadiana Krista Duchene (2:44:20).

No final, a vencedora diria “não haver palavras para exprimir os sentimentos”!

Depois mais surpresas, com outras atletas americanas e a vencedora do ano passado, a queniana Edna Kiplagat, apenas 9ª (2:47:14) a mais de 13 minutos da vencedora! As outras africanas? Foram com a chuva…

Um enorme Kawauchi

Um herói do povo japonês: Yuki Kawauchi

Completamente louca a corrida masculina, também. Conhecem aquele famoso corredor japonês, amador, funcionário público numa escola e maratonista por “hobby”, Yuki Kawauchi? Pois este foi o seu dia!

Kawauchi, tinha até ao dia de hoje, um total de 78 maratonas corridas desde 2009 (sem nunca desistir), sendo que apenas numa delas correu em mais de 2:20 horas! Mais, em quatro anos, correu 11 ou mais maratonas: em 2013 correu 11, em 2014 foram 13, em 2015 foram 12 e em 2017 foram 12!

Este ano já somava três antes de correr em Boston. Com estas condições atmosféricas, Kawauchi parecia, literalmente, um “peixe na água”.

Tinha um mês quando o último japonês venceu em Boston

Fez nas duas primeiras léguas o tempo de 15.01 e 15.20, altura em que comandou a prova completamente isolado. Passou mal na terceira légua (18.00) e na quarta légua fez 14.10! Passou depois à meia-maratona em 1:05.59. Nessa altura comandava a prova o vencedor do ano passado, Geofrey Kirui, mas Kawauchi vinha no grupo. Nas próximas léguas Kawauchi corre em 16.35, 16.23 e 16.56. Dos 35 aos 40 km dispara de novo para 16,23 e corre a distância final em 7.16 minutos, para um triunfo memorável, com a marca de 2h15.58.

Agora, veja-se: na história da Maratona de Boston houve vários vencedores japoneses, mas a última vez que um japonês vencera em Boston, foi em 20 de Abril de 1987, por intermédio de outra lenda Toshihiko Seko (venceu com 2:11.50). Nesse mesmo dia, o nosso Yuki Kawauchi completava um mês e 15 dias de vida (deixo aqui um link de um trabalho sobre Kawauchi)!

Condições más? As melhores de sempre!

Depois dele chegou então o queniano Geoffrey Kirui (2:18:23), visivelmente desgastado. Para se ter uma ideia das desgastantes condições atmosféricas, Kirui fez menos quase nove minutos este ano do que fizera em 2017! Impressionante? Sim, mas o desconcertante Kawauchi, questionado no final da prova sobre essas condições, replicou “que estas foram as melhores condições de sempre para mim”, afirmando depois que na “prova nunca pensou em desistir de manter o ritmo. Mesmo quando eles foram mais rápidos”.

O pódio em Boston ficou completo com o norte-americano (queniano naturalizado) Shadrack Biwott (2:18:35).

Os restantes candidatos? Pois, foi como as mulheres, “afogaram-se” na chuva…

O vento já se notara nas cadeiras de rodas

Já antes, nas corridas de cadeira de rodas, também muito acarinhadas e com forte tradição em Boston, se verificavam as más condições atmosféricas, com o suíço Marcel Hug a vencer em 1:46.26, um tempo 27 minutos mais lento do que conseguira na sua última vitória em 2017!

No final da prova, Hug, enregelado, a tremer a voz, quase não conseguiu falar. Melhor estava no final a vencedora feminina, a norte-americana Tatyanna Mcfadden (2:04.39), que fora quarta no ano passado.

Segurança a toda a prova

Esta prova de Boston estava marcada pelo facto de se passarem cinco anos sobre o trágico atentado de 2013, quando quatro vidas se perderam e muitos foram os feridos.

Sem alertarem demasiado a população, as autoridades locais “convocaram” forças de segurança descomunais, com mais de oito mil polícias e outros elementos de forças de segurança, para além de helicópteros, viaturas e drones de vigilância, que se juntaram a centenas de câmaras de vigilância montadas em postes de eletricidade que estavam a ser a ser monitorizados por 250 oficiais de segurança num “Bunker” anti-explosões que pertence à “Massachusetts Emergency Management Agency” (Agência de Controlo de Emergências de Massachusetts).

Antes, os mais de 50 mil corredores, 10 mil voluntários e milhares de espectadores ao longo do percurso foram avisados para evitarem levar mochilas, sacos, bastões de basebol, garrafas que levassem mais que um litro de água e armas para o percurso pois as autoridades seriam rigorosas para evitar problemas.

Portugueses em Boston

Foram vários os portugueses que estiveram em Boston, estando entre eles a apresentadora de TV, Isabel Silva, que terminou a prova com a marca de 3:33.57, um bom resultado atendendo às condições. Melhor que ela só Ana Clara Oliveira (2:47.30), sendo o melhor português Rafael Oliveira, com 2:47.30. Podem ver-se os resultados dos nossos compatriotas (e de todos os concorrentes) no site oficial da prova deixando-se aqui o link para esses resultados de Boston.