Querem matar o meio-fundo e fundo português?

BEL06:19990328: BELFAST, IRLANDA DO NORTE: A equipa portuguesa de Seniores festeja apos receber as medalhas de bronze, hoje a tarde no 27¼ Campeonato mundial de Corta-mato, em Belfast. FOTO TIAGO PETINGA/LUSA

Numa declaração de interesses, devo dizer que pratiquei a modalidade em regime de alto rendimento durante 14 anos.

Em 1987, com 22 anos e um mês de idade obtive a marca de 13.27:88 nos 5000m. Mais tarde, no decurso da carreira, obtive os seguintes recordes pessoais:

PROVA________LOCAL________________ANO___MARCA
 1500m_______Maia_________________1992__3.41:62
 3000m_______Lisboa, E. Nacional__1994__7.47:21
 5000m_______Maia_________________1994__13.22:3
 10000m______Braga________________1994__27.53:64
 3000m Obst._Alvalade_____________1993__8.25:81
199904: BELFAST, IRLANDA DO NORTE: O ATLETA JOAO JUNQUEIRA. FOTO TIAGO PETINGA/LUSA

Membro da geração do final do século

Fiz parte duma geração que demorava um dia para chegar de Chaves ao Algarve. Nos anos 80 não havia internet e na primeira metade dos anos 90, poucas pessoas possuíam computadores pessoais. Não havia facebook.

Não havia casos de doping, não era sequer fácil as pessoas doparem-se. Onde se podiam adquirir os produtos e que produtos existiam?

Liam-se livros e, quando alguém proferia uma imbecilidade, ela morria no ciclo de amigos. Tudo mudou, os carros são agora muito mais rápidos e seguros, os cuidados médicos muito melhores, os computadores passaram de 256 megabytes para um ou dois terabytes de capacidade, os recordes mundiais evoluíram muito, o salário mínimo passou de 25 contos em 1986 (€125,00), para +/- €600,00, tudo avançou.

Actualmente, se alguém disser que a terra é plana e que existe uma conspiração para provar que é redonda, no minuto seguinte, em todo planeta, há pessoas a concordar com tal opinião.

Não me movem cargos, viagens ou pratos de lentilhas.

Fui, muito honrosamente, convidado pelo Professor Jorge Vieira para integrar o elenco directivo da lista com que venceu o seu primeiro ato eleitoral. Declinei o honroso convite que me dirigiu por razões pessoais.

Caso tivesse aceitado, teria feito parte da então Direção da FPA e teria muito provavelmente, sido reconduzido neste elenco diretivo, presumo que para tal bastaria nada fazer e tentar passar entre os pingos da chuva.

O que me move, para contribuir para o debate a propósito de este e-mail que uma mão amiga me fez chegar, relativamente esta proposta de calendário para a época 2018/2019, é a minha grande paixão pela modalidade.

O fim do meio-fundo e fundo?

Pela observação que fiz parece-me estar em marcha um plano para acabar definitivamente com o meio fundo e fundo nacionais.

A propósito de algumas alterações no calendário, nomeadamente na data do CN Corta-mato longo.

Para preparar a participação no campeonato nacional de crosse são necessários, no mínimo, dois ciclos de treino, cada um com quatro semanas. Se acrescentarmos mais três ou quatro fins de semana para competição, teremos 12 a 13 semanas. A isto há ainda a acrescentar, no mínimo, três semanas de endurance (as primeiras) e mais duas onde o treino de qualidade será apenas treino intervalado, e só depois se entra no ciclo de treino propriamente dito. Tudo perfaz um total de 17 a 18 semanas podendo chegar às 20.

Para um Campeonato dia 18 de Novembro, sendo que este deverá ser o ponto alto da época de crosse, a preparação terá que se iniciar, no mínimo, na primeira semana de agosto.

Presumindo que utilizamos uma dupla periodização, para que um atleta atinja o melhor da forma no primeiro pico da periodização (objetivo), são necessárias muitas semanas de treino. É nisto que ninguém parece pensar.

São necessárias 17/18 semanas no mínimo.

O exemplo do trabalho

Portugal não é um país nórdico, as temperaturas são elevadas, por vezes até outubro. Vai-se começar a preparar o Campeonato de Portugal numa altura em que, porventura, ainda se devia a estar a fazer pista ou em descanso.

Sabe-se muito bem que há maneiras diferentes de preparar um atleta para atingir o pico de forma, propõe-se aqui uma que se sabe que resulta (experimentada com sucesso durante 30 anos!)

Não se detalha o treino, aponta-se apenas o treino de qualidade de sábado, só para ilustrar quantas semanas são necessárias.

 

Outro olhar

Numa perspetiva de o mundial de crosse da IAAF se disputar no final de fevereiro, faz todo o sentido que o Campeonato Nacional de Corta-mato se dispute duas semanas antes, no início do mês de fevereiro.

Depois do mundial, há ainda cinco a seis semanas para afinar a participação no Ibérico de 10000m.

Deverá, então, ser colocado no final de abril, depois do Ibérico, o Campeonato Nacional de Estrada. Data a partir da qual os atletas devem concentrar toda a atenção na preparação da época de pista.

Como alternativa, e apesar de não parecer correto, mas sendo um mal menor, o Campeonato Nacional de Estrada, poder-se-á encaixar no período correspondente à data onde no quadro anterior se propõe a 10.ª semana de treino (primeira competição do período preparatório para o corta-mato – 1º fim de semana de outubro). Ficando assim arrumada a estrada.

Definirem como pontos altos S. Silvestres e outros que tal é um completo absurdo. Está tudo doido. Depois fazem 14 ou 15 minutos aos 5000m e 29 ou 30 minutos aos 10000m.

Um exemplo

A propósito, no final deste apontamento poderá ser consultada a tabela com uma recolha dos resultados obtidos pelos atletas portugueses no Campeonato Ibérico, Challenge ou Taça da Europa de 10000m, a maior parte conseguidos quando Portugal participava no mundial de crosse da IAAF (com nove atletas por equipa até 1997 e depois de 1998 inclusive participava com seis atletas no crosse longo e seis no crosse curto) e onde os atletas apontavam para o Campeonato Nacional de crosse, no último fim de semana de fevereiro ou primeiro fim de semana de março. Esta delineação de objetivos não foi fator para não se obterem resultados, antes pelo contrário foi fator potenciador. Caso contrário o Professor Mario Moniz Pereira estaria errado.

As questões a colocar

Até podia haver a desculpa, “com o Nacional nesta data”, sempre selecionam os atletas para o campeonato da Europa de crosse. Sobre isto deve dizer-se duas coisas:

1. Como foi possível conseguir ser tantas vezes campeão europeu, individual e coletivamente, homens e mulheres, juniores e seniores, com Campeonato Nacional em fevereiro ou março? E depois obter resultados nos 10000m?

2. Com o número reduzido de atletas de algum valor que existem, ainda é necessário prova de seleção?
Para o próximo campeonato da Europa deviam já estar selecionados: em masculinos – Rui Teixeira, Rui Pinto, Samuel Barata e Rui Pedro Silva (mas qual é a dúvida?); e em femininos – Jéssica Augusto, Sara Moreira, Dulce Félix, Sara Ribeiro, Carla Salomé Rocha e Marta Pen, com Inês Monteiro como suplente.

Qualquer uma das atletas referidas, mesmo no fim-de-semana a seguir a terem terminado uma maratona, será sempre melhor do que a oitava melhor atleta portuguesa (de novo, qual é a dúvida?).

Quanto mais cedo se definir a seleção melhor. Deve acordar-se com os atletas/treinadores, apoios, calendário competitivo e eventuais estágios.

Provas de seleção para quê?

Estas justificavam-se nos anos 80 e 90 do Séc. XX. E, como é muito importante conhecer o passado, pois só assim programaremos melhor o futuro, importa realçar que nesses anos havia atletas para formar três equipas, todas elas candidatas à conquista de uma medalha nos Europeus de crosse. A título de exemplo, apresento os rankings anuais em 5000 e 10000m, nos anos de 1988, 1993 e 1994:

Ranking português, de 5.000 e 10.000 m (1988)
Ranking português, de 5.000 e 10.000 m (1993)
Ranking português, de 5.000 e 10.000 m (1994)

Proposta de selecção

Selecionar será quase isto, a título de exemplo:

1. Cinco (5) dos seis elementos que constituirão a equipa que em dezembro de cada ano participará no campeonato da Europa de Crosse deverão ser definidos em maio, assim poderão projetar o descanso e definir a preparação para a competição (não vale o cliché – e se alguém não está em forma ou se lesiona – se tal acontecer, substitui-se);

2. O escalão a privilegiar é o Sénior;

3. O escalão sub-23 será composto pelos atletas desse escalão que não integrem o escalão sénior.

A má relação com o erro

Tradicionalmente convive-se mal com o erro. Aliás a actividade que mais evoluiu, nomeadamente na segurança, foi a aviação civil.

Contribuiu decisivamente para tal implementação da caixa Negra e o estímulo à reportação de erros por parte dos pilotos sem que tal acarretasse qualquer penalização. Pelo contrário, a ocultação e a não reportação implicava e implica graves consequências para os pilotos.

Assim, a aviação civil tornou-se o meio de transporte mais seguro do mundo!

As grandes empresas entenderam isto. Na Google, na Microsoft, na Ford Motor Company, só para citar alguns, o erro é para ser corrigido… existe um incentivo à exposição do erro. Por outro lado, existem instituições onde o erro é escondido, o que leva inevitavelmente ao retrocesso e ao fracasso. Aconteceu na banca, acontece na justiça e em outras instituições, tal como parece estar a acontecer na FPA.

O que aconteceu na banca e acontece por vezes na Justiça e em outras actividades, é que em vez de assumir o erro e corrigir, encobre-se, tentando encontrar formas que justifiquem a conclusão a que se quer chegar. Nomeadamente, só se aceitam argumentos que validem a tomada de decisão com base, não em factos e provas, mas tão somente com base no argumento de autoridade. Parece ser o que vai acontecer a propósito do calendário para o meio fundo e fundo da FPA.

Inevitabilidade do debate

Será inevitável viver no meio fundo alternâncias entre períodos de grande fulgor e sucesso e períodos de crise e de ausência de resultados.

Numa quinta onde se utiliza herbicida, existe sempre uma erva que resiste e que se vai reproduzir e voltar a colonizar a quinta.
Será inevitável que num país tenhamos sempre pontos baixos?

Este fenómeno é retratado por Richard Dawkins no “Gene egoísta”, nomeadamente na estratégia Falcão/Pombo.

Quando se atinge o ponto mais baixo, à semelhança do que acontece em Portugal, os resultados são tão maus que começa a ser mais fácil apresentar resultados melhores que os imediatamente anteriores, alguém que resista e apresente resultados, arrasta assim outras pessoas, criando um élan.

Todos os impérios têm um fim.

Já não há lembrança das coisas que precederam, e das coisas que hão de ser, também delas não haverá lembrança, entre os que hão de vir depois.

O paradigma português

Um objectivo atinge-se treinando por ciclos. Há várias formas de o fazer.

Em Portugal nos anos 70, 80 e 90, anos de ouro, utilizava-se uma dupla periodização do treino. O primeiro objectivo era o Campeonato Nacional de Corta-mato juntamente com o Mundial de Corta-mato. O segundo objectivo da época correspondia aos Campeonatos de Portugal de pista, juntamente com Jogos Olímpicos/Mundiais de Pista/Europeus de Pista.

Para atingir o 1.º e o 2.º objectivo cada um dos ciclos era composto por aproximadamente 18 a 20 semanas. Visava-se o 1.º objectivo, que com ligeiras adaptações se podia adaptar ao treino para a maratona. Para o objectivo de verão os princípios do treino são semelhantes. No entanto, as distâncias, ritmos e repetições são diferentes, substituía-se também o treino de força por um treino de velocidade de resistência.

Diminuíam os quilómetros e aumentava-se a qualidade e intensidade.

Realizavam-se, em média, 12 treinos semanais, com quilometragem a variar entre os 160 e 220 km. Em cada semana havia um treino intervalado, um treino fraccionado, um treino de força e um treino de longa duração.

Treino Intervalado

Em Portugal generalizou-se o intervalo de um minuto, mas ele é, normalmente, entre 50 segundos e 1’20 segundos. Presumindo que o atleta necessitasse de três minutos para recuperar totalmente em termos cardiovasculares de uma série de 400m, então definia-se como pausa no treino intervalado um minuto (1/3 do tempo total para recuperar – pausa lucrativa que deve ser cumprida com ligeiro trote para ajudar a metabolizar/remover o ácido láctico), porque se pretendia que sempre que o atleta partisse para a próxima série ainda não estivesse recuperado, desenvolvendo assim uma tolerância ao acumular de ácido láctico e esforço. O ritmo de cada repetição seria bastante superior ao ritmo de competição.

Treino Fraccionado

Neste treino, sempre que se partia para a próxima repetição, o atleta devia estar recuperado em termos cardiovasculares, aproximadamente 100%.

Dividia-se a distância que fazia parte do objetivo, em frações de 3000m, 2000m, 1500m e 1000m. No primeiro ciclo utilizava-se intervalo de quatro minutos, no segundo ciclo utilizava-se intervalo de três minutos, e no terceiro ciclo utilizava-se intervalo de 2:30 minutos. O ritmo de cada repetição era mais próximo do ritmo de competição.

Treino de Força

Utilizava-se treino em rampas com distâncias entre os 200m e 300m, com intervalo igual à descida da rampa e o número de repetições entre 8 a 12. Ritmo superior ao ritmo de competição.

Treino Longo

Este treino realizava-se uma vez por semana normalmente ao domingo e variava entre 1h20 e 1h45 minutos (130/140 pulsações por minuto).
Reflectindo sobre isso, pode ver as mudanças dos processos de treino num artigo separado (A EVOLUÇÃO DOS MÉTODOS DE TREINO). Verifica-se pois, que em Portugal se conseguiu quase a quadratura do círculo, treino de alta intensidade e de grande volume, quase sem o emprego de grande tecnologia.

A evolução dos métodos de treino

Por um lado, o professor António Campos e o professor Jorge Ramiro, numa linha de intensidade, por outro lado, o professor Moniz Pereira, o professor Pompílio, o Alfredo Barbosa, o António Ascensão e talvez o professor Lara Ramos numa linha de volume, não descurando a intensidade. O professor Fonseca e Costa situava-se entre os dois.

No entanto, em Portugal, estas duas linhas de pensamento foram-se fundindo, sendo que no fim dos anos 80 o que ficou foi: alta intensidade e alto volume. E foi semiabandonado em meados da primeira década do Séc. XXI.

Este era o ciclo tipo para um ciclo de 15 semanas (treino fraccionado):

Vejamos agora o treino tipo para uma semana:

Treino tipo para uma semana

Estrutura base, dependia mais da quantidade e menos da intensidade para o objectivo de inverno e mais intensidade e menos quantidade para o objectivo de verão.

Com a falta de prática desportiva na nossa sociedade, foram chegando à modalidade jovens com uma capacidade desportiva menor, o que conduziu o meio-fundo e fundo português a uma singularidade a que os treinadores actuais não souberam dar resposta ou deram a resposta menos adequada. A resposta dada criou um paradoxo.

Reduziram as pausas do treino intervalado e do treino fraccionado, reduzindo assim a intensidade das repetições (ritmo das séries). Porém, esse foi o erro! Tal conduziu os atletas a menos capacidade de produzir ritmos elevados o que levou a nova redução dos intervalos e dos ritmos dos treinos. Este novo paradigma não conduziu a uma melhoria nem tal podia acontecer.

De uma forma simples

Se um atleta fizer 10x1000m com intervalo de 3 minutos para uma média de 2.45:0, não se pode afirmar que esse mesmo atleta possa atingir uma marca em 10000m de 28,00:0, mas fará certamente menos de 28.20:0. Se um atleta fizer 10x1000m com intervalo de 1 minuto para uma média de 2.55:0 pode-se afirmar com toda a certeza que não fará sequer 29.10:0, porque quando retirarmos o minuto de intervalo será impossível correr os 10000m à média de 2.55,0, e a esta conclusão já em Portugal se havia chegado nos anos 70.

Os treinadores actuais deviam ler mais história em geral e da corrida em particular.

Conclusão

Para quem teve a coragem de aqui chegar, lendo também, na íntegra, o artigo A EVOLUÇÃO DOS MÉTODOS DE TREINO, digo:

Se a alteração proposta para a realização do Campeonato Nacional de Crosse longo, se prende com a intenção de uma ausência definitiva de participação de Portugal no Campeonato Mundial de Crosse da IAFF, importa lembrar que em 1982, um português foi último classificado na prova de juniores do Mundial de Crosse da IAAF.

Esse mesmo atleta seis anos mais tarde, obteve em 5000m a marca de 13.15:62!

Não se sabe o que este atleta teria feito se não tivesse participado nesse mundial mas sabemos o que fez apesar de ter sido último. Não se deve extrapolar, pois não existem provas que justifiquem o que teria acontecido se não tivesse participado. Não utilizaremos argumentos de autoridade pois como disse Albert Einstein “Respeito cego pela autoridade é o maior inimigo da verdade”.

Aproveito ainda para parafrasear Carl Sagan “Todos os argumentos de autoridade tem pouco peso – as “autoridades” cometeram erros no passado e vão cometer novamente no futuro. Em ciência não há autoridades”.

Os factos são: foi último e mesmo assim, mais tarde obteve 13.15 aos 5000m.

Se fosse hoje jamais participaria no Campeonato do Mundo.

Se com este documento contribuir para uma reflexão mais atenta acerca do que deve ser tido em conta para alteração de calendário, darei por bem empregado.

“Não aceito críticas de quem diga mal de mim, aceito críticas de quem faça melhor do que eu.”

 

Por João Junqueira, atleta olímpico (palmarés desportivo pode ser visto no site “Atletismo-Estatística”