Campeonatos de Portugal decorrem em Leiria com pensamento em Berlim

João Vieira (arquivo)

Muitos duelos em perspectiva nos Campeonatos de Portugal de pista ao ar livre, que pela primeira vez são determinantes nas classificações dos atletas portugueses nos rankings mundiais.

O Estádio Municipal de Leiria, palco de grandes momentos da história do atletismo português e internacional, volta a receber os Campeonatos de Portugal, a mais importante competição individual de pista do calendário oficial, que assume relevância extra por ser obrigatória a presença dos atletas com qualificação para os Campeonatos da Europa de pista, que se realizarão em Berlim, no princípio de Agosto, e também porque é uma prova que está num patamar elevado de bónus de pontuação que conta para o ranking mundial dos atletas, que num futuro próximo definirá as qualificações para os Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais.

Por isso são esperados momentos de grande competitividade, com marcas de relevo. Entre essas marcas, que até podem ser recordes de Portugal, espera-se que possam ser superados vários recordes dos campeonatos, algo que sucedeu em três provas masculinas no ano passado (peso, disco e 4×100 metros) e apenas .

Curiosamente, esta época poderá cair o recorde mais antigo dos campeonatos, o dos 400 metros (46,58 segundos), que pertence a Paulo Curvelo, então no Benfica, desde 1989!

Mas vejamos, nos masculinos, o que pode suceder nos Campeonatos de Portugal em cada sector (e temos o feminino noutra página).

Velocidade: a maior competitividade dos últimos anos

A velocidade portuguesa tem estado em evidência nos últimos meses, e Carlos Nascimento (Sporting), com os 10,13 segundos conseguidos em Braga, lidera o ranking nacional dos 100 metros, seguido de perto por José Pedro Lopes (10,32 s) e Frederico Curvelo (Benfica), com 10,37 segundos (Frederico é filho de Paulo Curvelo, ainda recordista dos campeonatos em 400 metros).

Nestes Campeonatos de Portugal, também há que ter em conta Diogo Antunes (Benfica), que tem 10,41, e foi campeão nos dois últimos anos. David Lima (Benfica), o segundo melhor português de sempre, não tem estado em grande forma e está um pouco a “correr por fora”, embora seja candidato aos 200 metros. Contudo, tem como melhor este ano a marca de 21,54 segundos, e melhor que ele, este ano, está Rafael Jorge (Benfica), com 21,04 segundos. Diogo Antunes, Ancuian Lopes, Frederico Curvelo e Carlos Nascimento também são nomes a ter em conta

Ausente Ricardo Santos, do Benfica, a prova de 400 metros deixa totalmente em aberto o caminho para um novo campeão de Portugal.

Meio-fundo: as incertezas num sector estagnado

O sector de meio-fundo já foi uma bandeira do atleta português. Definhou, mas ultimamente ainda tem dado alguns sinais de que pretende sair do marasmo a que se habituou. Nos 800 metros, que Miguel Moreira e Sandy Martins (ambos do Sporting) têm dominado nos últimos anos com três títulos cada, o benfiquista José Carlos Pinto (1.49,26 minutos) é o principal candidato para a conquista do título.

Nos 1500 metros, o sportinguista Paulo Rosário apresenta-se como o melhor deste ano (2.42,90 minutos), mas terá de contar com o benfiquista Hugo Rocha (3.43,79) e alguma surpresa que possa surgir.

Nos 5000 metros, resta saber quem participará. Ainda não foram divulgadas as inscrições recebidas e ninguém tem mínimos parra os Europeus nesta distância. Os dois melhores do ano são os benfiquistas Rui Pinto (13.46,11 minutos) – ausente – e Eduardo Mbengani (13.47,82 minutos), mas há que contar com a presença do campeão de 2017, Samuel Barata (Benfica), que tem mínimos para os Europeus nos 10.000 metros.

A prova mais emocionante e, provavelmente, mais significativa será a dos 3000 metros obstáculos, onde os benfiquistas André Pereira (8.39,19 minutos) e Miguel Borges (8.39,23 minutos), ambos com marcas de qualificação B para Berlim (só poderá ir um), terão de lutar por um lugar para os Europeus.

Barreiras: sem grandes destaques nos Campeonatos de Portugal?

O sector de barreiras não tem conhecido dias grandes e tardam a surgir elementos que elevem o nível competitivo. Sem Hélio Vaz, do Benfica (14,42 segundos), apenas tem Samuel Remédios (J. Vidigalense) tem algo a acrescentar (14,46 segundos), mas este deverá optar pelo decatlo. Como aparecerá Rasul Dabó?

Nos 400 metros barreiras, Diogo Mestre, do Benfica, que tem como melhor 50,39 segundos, não tem tido nenhum adversário à sua altura.

Saltos: duelos com boas marcas em perspectiva

O sector de saltos tem produzido momentos altos nas últimas edições, muito por “culpa” dos duelos entre os melhores portugueses a que este ano se acrescenta a prova de triplo-salto.

No salto em altura, o benfiquista Vitor Korst (2,14 metros) tem oportunidade para bater o campeão dos últimos quatro anos, o seu colega de equipa Paulo Conceição (2,13), que não está tão forte como sempre.

Já no salto com vara, volta o despique entre o benfiquista Diogo Ferreira (tem 5,66 metros como melhor esta temporada), que tem quatro títulos, e o sportinguista Edi Maia (5,56 metros), que soma seis títulos.

No salto em comprimento, Ivo Tavares, do Benfica (7,89 metros) e Miguel Paim Marques, do Sporting (7,75), que nunca foram campeões, são os favoritos.

Finalmente, no triplo-salto, pode acontecer o duelo mais faiscante, com o benfiquista Pedro Pablo Pichardo, que tem 17,95 metros como melhor (e lidera o ranking mundial), e o sportinguista Nelson Évora, que tem como melhor os 17,40 metros obtidos em pista coberta, e que esta semana regressou aos 17 metros (17,05).

Lançamentos: os mesmos nomes, mas mais intensidade

O sector de lançamentos tem sido dominado pelos mesmos atletas nos últimos anos. No lançamento do peso, Tsanko Arnaudov (Benfica) está ainda mais só, tendo como melhor 21,27 metros (embora em pista coberta) e o seu colega de equipa Francisco Belo, que teve uma paragem forçada no início da época, por lesão, está mais “atrasado” na forma (19,71 m), e ainda não deverá fazer-lhe sombra.

Francisco Belo, campeão do lançamento do disco em 2017, também está na luta por esse título, embora tenha uma marca (57,31 metros) abaixo da do jovem sportinguista Edujose Lima (57,61 metros). Filipe Vital e Silva (Real Sociedad, de Espanha), que já lançou 57,00 metros, também é um nome a ter em conta.

No lançamento do martelo, o líder anual António Vital e Silva (Benfica), com 73,16, não está entre os inscritos, mas é o próprio a confirmar a sua presença. Assim, a confirmar-se a sua participação, será o favorito principal, apesar das melhorias dos jovens Décio Andrade (Estreito), que vai em 67,30 m, e Miguel Carreira (Sporting), que vai em 67,08. E também temos de contar com o benfiquista Dário Manso (66,88), que já tem no seu palmarés nove títulos nacionais, e assim tem algo a dizer.

O dardo ficou sem o seu despique, com a ausência do júnior Leadro Ramos. Tudo mais calmo para o recordista nacional, Tiago Aperta (Sporting), que já vai em 73,16 metros, e pretende chegar ao seu sétimo título (que lhe foi impossibilitado de conquistar em 2017, apesar de te vencido, por problemas administrativos com a sua inscrição, que não o deixaram federar-se).

Marcha, combinadas e estafetas: João Vieira em destaque nos Campeonatos de Portugal

Nestes três últimos sectores, de marcha atlética (10.000 metros em pista), provas combinadas (decatlo) e estafetas (4×100 e 4×400 metros), a única certeza que existe é que, se participar, João Vieira, do Sporting, pode cimentar ainda mais a sua liderança de português em actividade com mais títulos de campeão nacional. É que o atleta de Rio Maior já soma 25 títulos nacionais em todas as variantes da marcha, sendo 17 nestes campeonatos!

No decatlo, se concorrer, Samuel Remédios (J. Vidigalense) poderá ser o maior obstáculo a que o jovem Pedro Ferreira (Sporting) consiga o terceiro título consecutivo.

As estafetas dependem muito das apostas das equipas. O ano passado, os benfiquistas apresentaram-se na estafeta mais curta e conseguiram o recorde dos campeonatos. Será que repetem?

Na página oficial da FP Atletismo pode ver-se o regulamento, programa-horário e as listas de inscritos desta competição que decorre sábado e domingo próximos.

Texto e fotos (salvo nota junto da foto):  António Manuel Fernandes