A dura escada do atletismo profissional

O atletismo é uma modalidade apaixonante. Pelos desafios que coloca a todos os que a praticam, sempre diferentes, sempre tão similares. Também o é pelas histórias que estão por trás de muitos atletas. Hoje damos a conhecer dois momentos muito diferentes que mostram muito da magia e do sonho que persegue os atletas e também o lado menos brilhante do caminho já como profissional.

Não são histórias comuns, bem pelo contrário. São exemplos do que pode acontecer, dois de muitos caminhos que a modalidade coloca a quem a quer praticar.

Vamos começar pelo lado mais amargo. A da princesa medalhada que virou “sem abrigo”, numa luta incessante por algo que de repente perdeu e tarda em encontrar: o seu EU!

“Não é uma questão de EGO!”, escreve a atleta Tianna Bartoletta, norte-americana, 32 anos de idade, 13 de atleta profissional no seu blogue (https://www.theycallmetb.com/blog/), numa das suas publicações, que a par dos “posts” nas redes sociais transformou numa espécie de terapia.

Pode ver-se a dor e a tragédia porque passa ao ler o seu blogue e as entrevistas que deu, especialmente após a sua medalha de bronze nos Mundiais de 2017. 

“As pessoas nem imaginavam o que passava pela minha cabeça, não sabiam as minhas agruras, os meus problemas. Aquela medalha foi mais que uma medalha, foi a MEDALHA! Fui uma espécie de “sem abrigo” nos três meses que antecederam a medalha. Sem casa própria, dormindo onde calhava. Treinando, procurando ultrapassar uma série de questões…”, vai-se lendo.

Tianna Bartoletta

A velocista e saltadora está há 13 anos no circuito profissional. No ano passado, antes da medalha, divorciou-se, saiu do seu grupo de treino. Até 2017 (mundial incluído), conquistou seis medalhas de ouro, três de bronze e um recorde mundial, de que ela destaca assim os últimos anos numa publicação no seu blogue:

“2014: Número um mundial (comprimento) e campeã da Liga Diamante
2015: Campeã Mundial (comprimento) e campeã da Liga Diamante
2016: Dupla camepã olímpica (comprimento e 4×100 m)
2017: A atleta com mais saltos acima de 7 metros, uma medalha de bronze onde competia, literalmente, pela minha vida
9: o número de fraturas de stress que acumulei na minha perna de chamada durante esse período
7: o número de fraturas de stress na outra perna
1: uma torsão do tornozelo da minha perna de chamada”

Depois do mundial, apesar do feito, a tragédia ainda estava à sua espera: a Nike tinha nova proposta para ela, a auferir apenas 35 por cento do que ganhara no ano anterior! Numa altura em que tinha perdido tudo o que tinha ganho anteriormente, que esteve na causa do seu divórcio, apostando ainda mais esta época, “gastando o que não tinha para treinar”, apenas com um ou dois meetings confirmados, a atleta parou para pensar depois de correr num meeting na América Central, ao olhar para o quadro eletrónico e ver que o resultado alcançado (11,43) estava longe do que queria. Tardava a regressar a si própria.

Foi o momento da sua última publicação, em que revela todo o desencantamento pelo atual sistema de empresários e meetings, em que põe o dedo na ferida da falta de visibilidade para quem não é corredor. No fundo, refere a falta de humanismo que se vislumbra.

E termina assim:
“Ei você…, o guerreiro do fim-de-semana, o joão comum, o monstro da maratona, o atleta amador, o jovem atleta, o atleta master, o atleta profissional…
Você vale muito mais do que as medalhas, as fitas, os troféus, os cheques.
Tanto mais que nunca haveria o suficiente do acima mencionado para o compensar por ser você de qualquer maneira.
Não olhe para a direita ou para a esquerda, para o que alguém está recebendo, o que parece ser a mesma coisa que você faz regularmente…
No final do dia, todas as nossas etiquetas de preço dizem a mesma coisa:
impagável.”

A gata borralheira britânica

Longe desta amargura, à procura da ribalta está outra velocista, oito anos mais jovem, mas com uma história brilhante. Há pouco mais de duas semanas, a escocesa de que falamos agora, Beth Dobbin, tinha um mundo certinho! Tinha sonhos, é verdade, mas sentia que os seus obstáculos ainda impediam esses sonhos. Até que a marca de 22,59 segundos que lhe deu o título britânico mexeu por completo no seu equilibrado universo.

Beth Dobbin

“Estou a viver o melhor dia da minha vida!”, publicou ela no seu twitter.

Nunca foi uma júnior brilhante, bem pelo contrário. Ainda jovem adolescente, uma grave crise epilética parecia cortar-lhe os sonhos. Esse incidente varreu-lhe toda a memória e impediu-a de falar e mover-se durante semanas.

Recuperada e controlada, o deporto foi uma terapia fundamental. Para estar mais perto desse sonho de ser atleta, sem qualquer subsídio ou ajuda, começou a trabalhar no Centro de Alto Rendimento da Universidade de Loughborough, onde é recepcionista em part-time. Mas isso não chega para se aguentar e divide o tempo com mais três trabalhos: part-time segurança, part-time introdutora de dados informáticos, part-time assistente escolar.

Durante o dia, desfilam diante dela muitos dos melhores atletas profissionais britânicos e do Mundo para efetuarem os seus treinos, algo que ela faz quando acaba o seu turno.

Mas isso não lhe tolheu os sonhos e a intensidade e a garra de treinar, que deu um sinal quando em Abril bateu o velhinho recorde da Escócia de 200 metros, com a sua “erupção” atlética a manifestar-se nos Campeonatos da Grã-Bretanha. E assim se virou o Mundo de Beth Dobbin, a atleta de que falamos, como podemos ver na entrevista ao “The Thelegraph” (https://www.telegraph.co.uk/athletics/2018/07/13/no-funding-four-jobs-beth-dobbin-beat-professionals-become/).

Convocada para a Taça do Mundo, a atleta faltou – literalmente – ao trabalho para representar a Grã-Bretanha, “consegui trocar os turnos de quinta, sexta e domingo, mas não o de sábado. Terei que faltar, algo que nunca fiz!”, disse a atleta.

Mais, enquanto os seus companheiros de selecção entram em estágio para os Europeus de Berlim, Dobbin tem ainda mais de uma semana de trabalho a cumprir, antes de integrar o grupo de apoio de elite da federação britânica, que a transformará de gata borralheira em atleta profissional.