Atletismo do Quénia no centro da tempestade

Kasarani Stadium, onde se disputaram os Mundiais Sub18

Desde a “descoberta” do atletismo competitivo, o Quénia tornou-se centro de todas as atenções, por via de uma esmagadora maioria de representantes de enorme valia, coleccionando vitórias nas grandes, nas médias e até nas pequenas competições.

A altitude, modo de vida e ambição, a par de treinos rigorosos e muito exigentes, eram justificação para esses resultados, mas a par disso surgiram outras notícias, como o desvio de dinheiro que os atletas auferiam para muita gente – e sempre se disse, e nunca negado, que vários dirigentes e responsáveis foram alimentando as suas carteiras à custa dos atletas.

Nos últimos tempos o Quénia tornou-se ainda mais notado. A maior frequência de notícias prende-se com atletas apanhados nas malhas do doping. E não foram só corredores de segunda ou terceira linha, também há lá campeões olímpicos!

No “centro das atenções” das entidades responsáveis, o Quénia ficou no radar também pelas fracas condições da sua agência anti-doping e do laboratório, que ficaram suspensos. Com a nova agência, mais independente, iniciou-se alguma transformação para repor a credibilidade do Quénia e o último passo está aí, com a entrada em funcionamento, já em Setembro, do novo laboratório de análises de amostras sanguíneas, certificado pela Agência Mundial Antidopagem (AMA), que se situará em Nairobi.

Este laboratório servirá o Quénia, a Eritreia, a Etiópia, a Tanzânia e o Uganda, sendo a alternativa à solução anterior em que as análises tinham de ser entregues até 36 horas depois de recolhidas num laboratório na África do Sul ou na Europa.

Não deixa de ser curiosa esta inauguração num momento, como nunca antes, em que é colocada em causa a probidade dos corredores quenianos, que no último mês já conheceram cinco suspensões! No total, 114 atletas quenianos já foram suspensos, sendo que 54 desses atletas actualmente cumprem essas sanções.

E que dizer da corrupção?

Entretanto, cerca de um mês depois de se conhecer a atribuição dos Campeonatos Mundiais de sub20 ao Quénia (Nairobi) em 2020, veio a saber-se, segundo uma investigação da Auditoria Geral do Quénia, que metade do dinheiro que o governo queniano investiu na organização do Mundial de Sub-18 de Atletismo realizado no ano passado, cerca de 14,5 milhões de euros, foi roubado….

Segundo a notícia, dos quase 30 milhões de euros que o governo do Quénia investiu nesta competição da (IAAF), teriam desaparecido mais de 14,5 milhões de euros, que alegadamente estariam debaixo da orientação do Ministério dos Desportos, segundo uma informação publicada no jornal Daily Nation.

A notícia vai mais longe e afirma que a comissão organizadora da competição, através do referido Ministério, não teria justificado quase dois milhões de euros em despesas.

O secretário de Estado do deporto, Kirimi Kaberia, recusou comentar a notícia, argumentando que o relatório da Auditoria tem de ser muito bem lido, mas assegurou que “ele não tem nada a esconder”.

Por sua parte, o CEO da organização do Mundial Sub’18, Mwangi Muthee, disse ao Daily Nation que todas as contratações e contabilidade do evento foram feitas por funcionários do Ministério do Desporto, a quem foi atribuída a soma de 14 5 milhões de euros para esta tarefa.

Este novo caso de corrupção nas instituições quenianas acontece poucos meses depois do suposto desvio de 76 milhões de euros do Serviço Nacional da Juventude (NYS), uma entidade pública que treina jovens que querem ter acesso às Forças Armadas.

Segundo um observador queniano, a corrupção em 2018 já “comeu” o equivalente a um terço do orçamento do Estado!