Zornotza: no coração do cross do País Basco (2)

Equipa que venceu o 14º título europeu de corta-mato (fotos Artur Madeira)

Amorebieta ou Zornotza, localidade do País Basco, perto de Bilbao, é muito conhecida do atletismo por acolher a realização de um dos mais antigos e de maior qualidade crosses do circuito espanhol. E são vários e valiosos os outros crosses bascos. O tema desta “Crónica com História”…

Mas fiquemos pelo de Zonortza, que este ano vai conhecer a sua 65ª edição, amanhã (domingo, 6 de janeiro, Dia de Reis). É no princípio do ano, mas já foi em fevereiro. Criado no ano de 1960, esta competição basca acolheu apenas atletas espanhóis até 1978, ano em que terminou a sua carreira de fundista, o “baixinho” Mariano Haro, vice-campeão mundial de corta-mato em 1973, 1974 e 1975 (!), que venceu sete vezes (!) o Cross Zornotza. Dedicou-se depois à política até 2003, sendo hoje um empresário.

Em 1979 abriu-se o crosse aos atletas estrangeiros, com triunfo do britânico Roy Bayley, e em 1984 integrou a primeira prova feminina, com triunfo de outra britânica, Jane Furniss.

Em 1986 aconteceu a primeira vitória portuguesa, por intermédio de Rosa Mota, que vinha já com o palmarés de primeira campeã europeia de maratona de sempre (Atenas, 1982) e medalha de bronze nos Jogos Olímpicos (Los Angeles, 1984). Já lá iremos a Rosa Mota.

Nenhuma outra portuguesa logrou vencer em Zonortza, mas houve três portugueses que ali brilharam: José Regalo foi o primeiro a vencer em 1987, depois foi Domingos Castro, em 1990 e 1994, e o último triunfo foi de Paulo Guerra em 1995, precisamente o penúltimo triunfo de um atleta europeu na prova (o último foi Sergey Lebid, nove vezes campeão europeu de corta-mato, no ano de 2000).

A última subida portuguesa ao pódio foi em 2009, com o terceiro lugar de Inês Monteiro, e a última presença portuguesa na prova foi em 2011, por Ana Dias (6ª classificada).

Mas voltemos atrás, a 1994.

14º título Europeu do Sporting foi em Zonortza

Em 1994, o Cross Zonortza, que se desenrola nos campos de Jauregibarria, realizou-se em 6 de fevereiro, e acolhia a organização da 31ª edição da Taça dos Clubes Campeões Europeus, em masculinos, uma competição que os portugueses do Sporting dominavam integralmente.

Esse ano de 1994, no entanto, marcava uma forte aposta da equipa espanhola da Reebok, que pretendia contrariar o favoritismo português, que vinha com cinco títulos europeus consecutivos.

Um duelo ibérico, portanto, já que a equipa do PAF Verona, que tanto trabalho dera aos portugueses em edições anteriores, não se apresentou em competição. Contudo, a equipa francesa do Marignanais, campeão de França, viria a ter um papel decisivo no final da corrida.

A equipa do Sporting, que acompanhámos, era então composta por Domingos Castro, Ezequiel Canário, Carlos Monteiro, João Junqueira, Eduardo Henriques e Alberto Maravilha (e terminaram por esta ordem!), e viajaram antes da prova para Bilbau, com o enquadramento de Fernando Carneiro, responsável da seção, Cristina Coelho, funcionária, o massagista Vladimir, e o professor Bernardo Manuel, como responsável técnico.

Na manhã da prova, chegou forte reforço institucional do Sporting, com o vice-presidente José Manuel Roseiro, o coordenador das modalidades, José Manuel Maia, e o ex-presidente das modalidades, Abílio Fernandes, que se deslocaram de Lisboa no avião particular de Sousa Cintra, presidente do Sporting!

O triunfo de Domingos e o fator coletivo

Pódio em Zornotza

A prova, como se esperava, foi dura para os portugueses. O forte empenho dos espanhóis Pere Arco, Francisco Guerra e Martin Fiz, de capacidades atléticas que suportavam melhor o forte desgaste da lama e da relva alta, levou a que a prova estivesse muito inclinada para eles, mas havia surpresas que eles não esperavam. A primeira, foi a superior força de Domingos Castro, que passeou a sua categoria, isolando-se logo na terceira volta do percurso sem dar hipóteses aos adversários, entre eles o já citado Pere Arco, e as grandes surpresas que vinham de terras gaulesas, o jovem Iann Millon e Jean Pierre Lautredaux, os que prevaleceram mais perto.

E tudo ficou decidido apenas na última volta. Domingos isolado, aclamado pela multidão (e eram muitos os espectadores), Millon, também isolado para o segundo posto, e Lautedraux a impedir a subida de um espanhol ao pódio individual. Os franceses, contudo, não tinham restante equipa à altura, e tudo estava a decidir-se entre portugueses e espanhóis, que se vinham a marcar “homem a homem”. Foi então que Ezequiel Canário fez prevalecer também a sua categoria, chegando em quarto lugar, mas o “joker” do 14º triunfo do Sporting acabou por ser Carlos Monteiro, que num final brilhante ultrapassou dois espanhóis para terminar a dois segundos de Canário, no sexto lugar. João Junqueira, fechou a equipa no 10º lugar. Estava consumado a 14º título do Sporting.

Curiosamente, foi também o último título coletivo da equipa antes do que conseguiu no ano passado em Mira, que faz dos “leões” a equipa mais titulada com 15 triunfos. O Sporting soma ainda mais seis segundos lugares no histórico da Taça. Ninguém tem palmarés semelhante ou aproximado!

Anexo Rosa Mota

Próxima crónica: Francis Obikwelu, o único português eleito Europeu do ano.