Os nacionais de estrada (4)

A equipa do Sporting do primeiro nacional de estrada (Eduardo Henriques, Fernando Mamede, Dionísio Castro, Domingos Castro, Carlos Patrício e Fernando Couto)

É já amanhã que se realiza a 26ª edição dos Campeonatos Nacionais de Estrada. Será em Oeiras, com partida e chegada no Estádio Nacional, o cartão de visita do atletismo.

Contudo, a estreia deste nacional já foi há 28 anos (faz 29 anos em abril!). Estava-se em 1990, em pleno período de glória do meio-fundo português. Somavam-se os resultados internacionais individuais, já se contavam títulos e medalhas olímpicas, mundiais, europeias, e o esforço coletivo dos clubes estava ao rubro.

Há muito que as Taças dos Clubes Campeões Europeus de Pista e Corta-mato eram referência no calendário. Com o incremento das provas de estrada, rapidamente se chegou à ideia de realizar uma taça também nesta variante.

Curiosamente, essa taça surgiu primeiro no sexo feminino, em 1985, em Itália, com primeiro triunfo de uma equipa italiana e com o Sporting de Braga em sexto lugar. A equipa bracarense viria a conquistar sete triunfos coletivos até ao final da competição, em 2011, em Almeirim, que teve no Maratona o vencedor nos dois sexos, numa prova conjunta, o que só aconteceu nas edições de 2010 e 2011.

A taça masculina iniciou-se em 1988, também em Itália, mas aí o Benfica foi “desmancha prazeres” e conquistou o primeiro dos seus cinco títulos na competição.

O nacional português

Posto isto, com a necessidade de eleger o representante nacional na taça de estrada, houve a ideia de criar um campeonato nesta variante, o que veio a acontecer em 1990. Mas esta não foi uma criação pacífica. Houve vários constrangimentos, em termos de calendário, porque havia ainda as provas de corta-mato e os mundiais, havia ainda a taça dos campeões europeus e o calendário português, com a Estafeta Cascais-Lisboa. A maior disputa tinha a ver com Benfica e Sporting, em masculinos, e Benfica e Sporting de Braga, em femininos. Nesta variante também havia “mosquitos por cordas”, com dúvidas e retificações nos regulamentos, principalmente no número de atletas que pontuavam para a classificação.

Após muita conversa, lá se arranjou uma data de compromisso, em abril, mas 21 dias depois da Taça dos Campeões, que se realizou em Lisboa, em masculinos (triunfo individual de Joaquim Silva a liderar o Benfica para mais um título coletivo), e em Nápoles, o feminino (triunfos de Conceição Ferreira e do Sporting de Braga). Foi, também, uma semana depois da Estafeta Cascais – Lisboa, em que o Benfica não apresentara alguns dos seus melhores atletas, o que viria a acontecer também no nacional.

Chegada a manhã do nacional de estrada, Lisboa estava debaixo de chuva. Com pouca divulgação (e escassa participação: 36 concorrentes em masculinos e 10 em femininos!), a prova decorreu num circuito no Campo Grande, ali a “dois passos” do Estádio de Alvalade, com pouco público, mas muitos engarrafamentos de trânsito!

Sporting e Benfica derrotaram favoritos

As equipas do Benfica, se tivesse os seus melhores atletas, e do Sporting de Braga, a quem faltou Albertina Machado e Rosa Oliveira, partiam como favoritas, mas o desfecho foi outro. Em masculinos, desde o início, os gémeos Domingos e Dionísio Castro surgiram na frente a impor forte ritmo e a meio da corrida de 15 km apenas o então benfiquista João Junqueira resistia ao ritmo das “locomotivas” de Fermentões. Mas Junqueira viria a pagar caro o esforço (terminou em oitavo) e o Sporting conseguiu o seu primeiro título coletivo. João Campos, com grande recuperação na segunda fase da prova, foi o melhor benfiquista. Uma nota: o Sporting teve de esperar depois 28 anos, até 2018, para conseguir o seu segundo triunfo!

Em femininos, foram as atletas do Benfica que surpreenderam por equipas, já que a vencedora individual foi Conceição Ferreira, muito acima das suas adversárias mais diretas, Lucília Soares e Manuela Dias, segunda e terceira, respetivamente.

As interrupções e os dominadores Conforlimpa e Maratona

Os nacionais de estrada tiveram interrupções. Depois da estreia, realizaram-se ainda em 1991, eles em Lisboa, na zona de Belém, elas em Beja, e depois foram suspensos. Em 1995 reeditaram-se e, umas vezes na primavera, outras no outono, realizaram-se em várias distâncias, de meia-maratona, 20 km e 15 km, até “estabilizarem” nos 10 km, o que se verifica desde 2014.

No total das edições, a equipa da Conforlimpa, que dominou o meio-fundo em duas décadas, conquistou 11 títulos, contra seis do Benfica, e individualmente, a grande figura é Eduardo Henriques, com 5 triunfos.

Em femininos, domínio do Maratona, com 13 triunfos coletivos (contra 5 do Braga). Individualmente, Dulce Félix e Inês Monteiro dividem o máximo de títulos, cada uma com cinco vitórias!

Sporting favorito em 2019

Agora, é tempo da edição de 2019, com o Sporting a surgir como principal candidato a validar os títulos conquistados no ano passado. Certa é a ausência dos vencedores do ano passado, Samuel Barata e Inês Monteiro, mas há atletas que pretendem aumentar o seu pecúlio como Sara Moreira e Rui Pedro Silva, ambos do Sporting, com Rui Pinto a buscar um título individual que pode “compensar” a ausência coletiva do clube.

Mais informações, horários e inscritos, na página da FPA ()

Anexo Dionísio Castro
(foto a preto e branco do momento do recorde mundial)

Crónica anterior: Francis Obikwelu o único português atleta europeu do ano, em 2006.