Crosse Italica no “reino do barro” com porco preto

Paulo Guerra em plena corrida sevilhana de 1997

Já lá vão uns aninhos, é certo. Aqueles em que ainda havia deslocações a acompanhar os melhores portugueses às competições em que participavam. Como colaborador em “A Bola”, fui algumas vezes ao Crosse Italica, em Sevilha, assistindo a grandes desempenhos e a vitórias dos atletas portugueses.

Numa das saídas lembro-me de ter ido de avião (com escala em Barcelona!). Noutra, em viatura própria. Nessa viagem escolhi a rota por Badajoz e depois pela estrada junto à fronteira, pelo meio dos sobrados, das quintas com porco preto (lá iremos mais adiante), um prolongamento do nosso amado Alentejo. Recordo que fiquei hospedado num hotel em La Cartuja. Coisa fina, deslumbrante (mas já não recordo mais pormenores, excepto a dificuldade de enviar o trabalho…). Lembro-me ainda que foi um fim-de-semana intenso, de muito trabalho, com chuva e acabei por ficar doente, regressando após a prova, de noite, chegando a casa de madrugada, assustando toda a gente, inteiro, mas a “ferver”, com a febre… 

1997: uma edição inesquecível

Um dos anos que visitei Sevilha em trabalho foi o de 1997. Tinha o meu filho mais novo pouco mais de três meses e lá fui, para assistir a um dos corta-matos mais memoráveis de sempre. A organização conseguira colocar na mesmo prova um conjunto de atletas verdadeiramente empolgante, desde o campeão mundial Paul Tergat ao campeão europeu Jon Brown, figura que nunca parou de colocar em questão as derrotas que os portugueses lhe infligiam, competição atrás de competição. Mas o Crosse Italica sem portugueses não era a mesma coisa.

Fernando Mamede foi o primeiro a brilhar, com dois triunfos consecutivos em 1984 e 1985, nos dois primeiros anos em que passou a acolher participação estrangeira. Nessa altura, a equipa do Sporting era convidada especial. Não falamos de atletas individualmente, mas do conjunto. Depois foi Domingos Castro, a triunfar em 1989. Pelo meio ali venceram Paul Kipkoech, Osoro Ondoro, Khalid Skah e William Sigei. Em 1995 apareceu Paulo Guerra e no ano seguinte Haile Gebrselassie.

Em 1997, quando lá estivemos, estavam presentes vários portugueses: Paulo Guerra, António Pinto, José Ramos, Alberto Chaíça, Helder Ornelas, Fernanda Ribeiro e Conceição Ferreira. As expectativas eram grandes, mas lá chegados os atletas, muitos sonhos se desfizeram. Assolada por forte invernia, a localidade de Santiponce, onde se realiza o crosse, no Conjunto Arqueológico de Italica, as ruínas da cidade romana de Italica, fundada em 206, antes de Cristo, revelou um percurso cheio de lama, “barro”, como referem os espanhóis e um curso de água muito mais cheio do que era habitual, a ponto de mais parecer um rio… que os atletas tinham de percorrer. Muito ao interesse dos atletas britânicos, especialmente de Jon Brown, que se sagrara campeão europeu.

No final da primeira volta, junto à meta, onde o “barro” dava pelos joelhos, Brown atacou e nem Tergat, campeão do mundo, nem Guerra, vencedor em 1995, estavam lá para responder, resguardados no final do grupo. Mas pouco depois Guerra despachou-se dos restantes adversários e colou-se ao britânico. Diria depois, «foi a primeira vez que não tive qualquer africano à frente ou ao lado ao meu ritmo…». Cá fora os incentivos eram fortes e Guerra lembrou-se do que lhe disseram, que o britânico afirmara estar cansado por não ter adversários à sua altura. No momento em que Tergat se colou aos dois, Guerra estugou o passou e correu disparado para a meta, para a sua segunda vitória. «Derrotei o Brown e hoje apanhei o Tergat a jeito. Foi a minha revancha, a minha desforra. O Brown ganhou em Charleroi porque eu não estava bem». Toma Brown.

Naquela altura Guerra dizia que os africanos estavam um pouquinho mais acima e que nos mundiais eram mais difíceis de bater. «Tem que se estar bem no dia D», disse então Paulo Guerra, que viria a encontrar o seu dia D em 1999, a 28 de março, quando chegou à medalha de bronze dos mundiais.

Neste crosse deu nas vistas o então jovem Hélder Ornelas, treinado por António Riscado que chegou em nono lugar. Ramos (20º), Pinto (23º) e Chaíça (46º), não se deram bem com a lama. Quanto a elas, Fernanda Ribeiro foi quinta classificada, numa prova sem queixas depois de algumas lesões, e Conceição Ferreira foi 14ª.

E agora… porco preto

No final da corrida, só para nós, Paulo Guerra deu conta dos seus segredos: correu não com um pé elástico (pois tinha tido alguns problemas) mas com dois, e estreou um par de sapatos para cross, mas de uma coleção de dois anos antes. Mais, antes da prova recolheu a Barrancos, sua terra natal, para treinar mais concentrado e num ambiente idêntico. Contudo, as novas que vinham de Espanha davam conta de muita chuva, o que significava terreno muito pesado, o que dava para pensar em nova tática: tinha um quilo e meio a mais de peso e tinha que os perder. Dieta rigorosa de peixe e carne de porco preto para aproveitamento máximo e nos últimos quatro dias quase sem comer.
E tanto sacrifício acabou por ser recompensado com aquela vitória. Nesse momento Guerra foi convidado para voltar, para tentar ser o primeiro a ganhar três vezes. Não conseguiu. Aliás, em toda a história da prova, apenas um atleta venceu três vezes. Primeiro em dois anos consecutivos, 2003 e 2004, depois em 2007. Foi o etíope Kenenisa Bekele.

E as portuguesas em Sevilha?

Foram muitas as portuguesas que ao longo dos anos correram em Sevilha. Algumas chegaram ao pódio, mas vitórias houve só uma: de Mónica Rosa, em 2002, numa prova em que a segunda foi outra portuguesa, Helena Sampaio.
Aliás, Mónica Rosa foi uma das portuguesas com mais notoriedade em Espanha, muito pelos seus desempenhos nas principais competições de corta-mato em Espanha.

 

Anexo – Paulo Guerra.