Campeonatos de Portugal em pista coberta: breve balanço

No final dos Campeonatos de Portugal em pista coberta, podemos dizer que houve alguns bons resultados, mas também houve provas menos conseguidas, numa pista muito massacrada, por utilização, mas ainda assim acolhedora.

Entre os bons resultados há que destacar um recorde dos Campeonatos, no triplo-salto feminino, conseguido por Susana Costa (Academia Fernanda Ribeiro), com 14,13 metros (também a sua melhor marca de sempre em pista coberta), mais oito centímetros que Patrícia Mamona (Sporting) há dois anos. Finalmente, as atletas desempataram em número de títulos, Susana tem agora sete, Patrícia 6. Foi também a confirmação para a qualificação de Susana Costa para os Europeus de pista coberta de Glasgow 2019.

«Foi muito bom chegar aqui e fazer o meu recorde pessoal. Não têm sido fáceis estas últimas semanas, pois continuo a treinar ao frio. Tive oportunidade para treinar aqui em Pombal há uns dias, espreitando pela oportunidade para estar ao meu melhor», referiu a atleta.

Na segunda posição ficou Patrícia Mamona, regressada de uma prova fantástica em Madrid, ao nível de uma final Mundial. «De facto, essa foi uma noite de sonho. Este resultado hoje, conseguindo fazer todos os saltos, chegando perto dos 14 metros, apesar de me sentir muito cansada, deixou-me satisfeita», que disse ainda sentir-se na «obrigação de competir neste campeonato, pois sou portuguesa e honra-me bastante estar aqui», concluiu.

Uma nota para o facto de as cinco primeiras terem saltado acima de 13 metros no triplo.

Os mínimos esperados, o título inesperado

Outro momento alto surgiu no segundo dia, numa prova muito interessante de lançamento do peso, com um triunfo surpreendente de Francisco Belo (Benfica), com 20,15 metros, marca de qualificação para Glasgow. O derrotado foi Tsanko Arnaudov (Benfica), com 20,02 metros.

No final da prova, para o vencedor, que conquistou o seu primeiro título absoluto, «o resultado hoje alcançado é um motivo de satisfação, mas tenho vindo a fazer provas com resultados muito progressivos, a ganhar cada vez mais confiança, competindo cada vez melhor, a apontar para os grandes campeonatos», afirmou, acrescentando: “tenho ganho confiança, estabilidade na técnica, e isso produz resultados cada vez melhores. É por isso que estou feliz e quero continuar nesse caminho, que passa por ir aos Europeus, tentar colocar em competição o que trabalho nos treinos.”

O despique no comprimento

Excelentes momentos competitivos foram protagonizados pelos benfiquistas Marcos Chuva e Ivo Tavares, ambos com um salto de 7,86 metros, desempatando, a favor de Chuva, por melhor segundo ensaio. Esta marca de Ivo Tavares constitui recorde pessoal.

Já para o novo campeão, ausente das competições mais de um ano e meio, por suspensão, esta prova deixa-o satisfeito, mas comedido, por estar perto da qualificação para Glasgow. «Não quero colocar pressão nesse objetivo, porque estive um ano e meio ausente, e só eu sei o que isso custou. Considero legítimo lutar por isso, mas não quero colocar isso como uma obrigação, e eu quero regressar de uma forma mais desportiva, de competir comigo mesmo. Pode transparecer uma coisa diferente daquilo que eu sou. Gosto de respeitar os meus colegas, não gosto de impor a presença, gosto de me afirmar pela marca. É uma defesa que tenho, e agora quero seguir, passo a passo», afirmou antes de subir ao pódio.

Curiosamente, também o salto em comprimento teve um momento alto, com Evelise Veiga a melhorar o seu recorde de pista coberta em duas vezes colocando-o em 6,46 (e, no dia seguinte, fez 13,48 no triplo), sendo já a segunda portuguesa de sempre, atrás de Naide Gomes. A qualificação para Glasgow ficou a quatro centímetros.

«Estou numa boa forma, melhor do que no verão da época passada, quando fui aos Europeus de Berlim. Estou muito constante, mas sinto que falta aquele clique. Tenho de ser paciente e não me fixar muito nessa preocupação», disse-nos a atleta.

João Vieira

João Vieira: 19 títulos nacionais em pista coberta perto dos 43 anos

João Vieira, o veterano marchador, campeão dos campeões de Portugal, conquistou o seu 19º título com o tempo de 19.47,38 minutos (o segundo classificado, Miguel Carvalho, do Benfica, ficou a 20 segundos).

O ‘reinado’ começou em 1996 e os anos em que não triunfou (foram cinco), o vencedor foi o seu irmão gémeo Sérgio Vieira. O atual campeão, João Vieira, após assegurar o seu 19.º título em pista coberta, realçou precisamente esse facto: “Já são muitos anos a ganhar títulos é o que me motiva para continuar a treinar todos os dias. Quanto a este triunfo, comecei mal a semana, devido a um problema de saúde da minha esposa e treinadora, mas também isso me fortaleceu e quero aqui voltar no próximo ano para o 20.”

Estando no seu pensamento terminar a sua longa carreira em 2020, o atleta do Sporting pretende continuar a colecionar títulos nacionais em todas as oportunidades, admitindo que agora pretende treinar apenas para cada competição.

“Com esta idade, à beira de completar 43 anos, levanto-me todos os dias com vontade de treinar. Vou continuar a lutar por cada título que houver para disputar em Portugal”, afirmou o atleta.

Tendo sido medalhado e finalista nas grandes competições internacionais, na prova de 20 km marcha e também na de 50 km, o sportinguista não vê com bons olhos o regresso à discussão de mudar as distâncias de 20 e 50 km, para 10 e 30 km, como forma de abreviar os programas.

“Vejo essa tentativa com preocupação, há uns tempos já tinha estado numa iniciativa para não acabar os 50 km nos Jogos Olímpicos, e agora vejo que um senhor italiano, Maurizio Damilano, quer de novo acabar com as distâncias que fazem parte dos programas, mas os atletas não concordam com isso”, concluiu o atleta.

Outros destaques

Cátia Azevedo (Sporting), vencedora nos 800 metros, em recorde pessoal (2.05,92 minutos), participando no segundo dia, depois de ter corrido na véspera os 400 metros em Gent, ficando fora da qualificação para os Europeus. «Em bom português, é ridículo estar à procura de uma marca que já deveria estar a ser acessível. Infelizmente, não me consigo adaptar a correr bem uma corrida em pista coberta, tenho várias hesitações. Ter ficado a três centésimos tem-me deixado ansiosa.»

Primeiro título absoluto de Frederico Curvelo (Benfica), nos 60 metros, prova que teve quatro falsas partidas (e desclassificou três atletas, entre eles o favorito Ancuian Lopes), e que proporcionou ao atleta uma marca (6,75) a três centésimos da qualificação para Glasgow 2019. «É um sentimento agridoce. É verdade que me sagrei campeão de Portugal, algo com que sonhava, fiz recorde pessoal, mas fiquei tão perto da marca de qualificação», disse no final da prova.

Confirmando a sua forma, Lorene Bazolo (Sporting) conseguiu a melhor marca do ano nos 60 metros, na eliminatória (7,32 segundos), e na final correu em 7,33 segundos. «Não era só este o meu objetivo, mas estou feliz por fazer a melhor marca do ano. Sei o trabalho que tenho feito e perseguia aqui o meu recorde pessoal – 7,27 segundos-, mas estou contente por ver que estou a melhorar a cada competição», referiu.

Momento também especial foi protagonizado por Ana Cabecinha, que este doente várias semanas, e que agora regressou para se testar conseguindo o seu nono título nacional. «Pois, é verdade, e essa marca de nove triunfos serve para eu tentar continuar mais dois anos, para tentar igualar a Susana Feitor. Só esta semana decidimos correr aqui, porque estive doente e queria testar-me, pois daqui a um mês tenho os nacionais de marcha e depois tenho as provas em Rio Maior e no México.”

Outros momentos

Houve outros momentos interessantes nos campeonatos, com os recordes pessoais dos benfiquistas João Coelho (47,70 aos 400 m) e Manuel Dias (5300 pontos no heptatlo), com este a ter como adversário o júnior Edgar Campre, que com os 5129 pontos é o segundo júnior de sempre.

No salto em altura masculino, destaque para o triunfo de Tiago Luís Pereira (Sporting), com 2,15 metros, com os nove primeiros a saltarem acima dos 2,03 metros.

Nestes campeonatos, embora isso conte pouco, pois os nacionais de clubes podem ter outros desfechos, registe-se que em Pombal o Sporting conquistou oito vitórias nas provas masculinas (contra seis do Benfica) e dez nas femininas (com Benfica a ter apenas duas).

No total dos títulos de sempre, o Benfica tem uma vantagem mínima em masculinos (163 títulos contra 162 do Sporting), mas o Sporting é “esmagador” no feminino: 182 vitórias, contra 69 do Benfica.

Campeonatos Portugal

Ficam aqui os pódios dos Campeonatos de Portugal de pista coberta, em Pombal (9 e 10 de fevereiro):

 

Reportagem, texto e fotos: António Manuel Fernandes