Os 10.000 metros do meio-fundo português

(Photo by Austris Augusts on Unsplash)

No passado fim-de-semana, o meio-fundo português tinha encontro marcado com o Troféu Ibércio de 10.000 metros, ocasião soberana para a obtenção de marcas por parte dos atletas portugueses, principalmente porque os “rankings” mundiais, com “bónus” de classificação, estão em vigor e apurarão para os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020.

A organização do Troféu, em Burjassot, na Comunidade Valenciana, em Espanha, integrava ainda o Campeonato de Portugal da distância (algo que se provou ser dissuasor da participação portuguesa, pois a distância era muita e as finanças dos clubes não têm grandes disponibilidades para tais luxos, algo que também se verifica quando a FPA integra os nacionais de maratona no Funchal…).

Ainda assim, a FPA entendeu convidar vários atletas a participar no Troféu (onde está em jogo o prestígio de Portugal, que nos últimos anos tem levado “porrada” de Espanha), com base num documento de critérios publicado na sua página oficial, que necessita rever o articulado, pois um convite não é convocatória e no seu articulado tinha: “5. Os atletas convocados estão impedidos de participar em competições a partir do dia 25 de março até 12 de abril.”.

Dos 11 atletas convidados, apenas oito responderam afirmativamente, notando-se a ausência dos dois primeiros do nacional de corta-mato, Rui Teixeira, campeão, que esteve bem no Mundial de corta-mato, e Miguel Marques, e ainda de Filipe Fialho, sub23.

Para lá dos oito convidados, estiveram mais 17 portugueses em Espanha (três dos quais no escalão sub20). Fraco número para um Campeonato de Portugal numa distância em que o nosso país já teve um recordista mundial e conquistou medalhas olímpicas, mundiais e europeias.

Poucos a competir: razões?

Mas como foram tão poucos e porque é que houve alguns nomes conhecidos que teoricamente poderiam ali estar, mas que acabaram a correr em provas de estrada nacionais?

Certamente que apenas os atletas podem responder diretamente a essas questões. Nós apenas podemos elencar algumas coisas que podem ter levado a essa situação e que merecem atenção por parte dos responsáveis.

A primeira das quais tem a ver com o apoio nacional que alguns atletas recebem, nomeadamente da PREPOL (Preparação Olímpica) ou do PAR (Plano de Alto Rendimento), sendo que a PREPOL visa o objetivo olímpico com final em Tóquio 2020. Ora, dos portugueses presentes em Espanha (25), apenas seis estão integrados nas listas do PAR, e desses, duas estão na Prepol pela distância de maratona (Dulce Félix e Salomé Rocha), e um em 3000 m obstáculos (Jorge Moreira). Portanto, exigências de mais ou melhores resultados não podem ser feitas a quem apenas moveu o interesse competitivo.

Vamos agora aos que estão no PAR, na distância de 10.000 metros, e não estiveram em Espanha. Alexandre Figueiredo optou pelos 10000 metros do regional de Lisboa (onde obteve mínimos para os Europeus sub23), Samuel Barata está a cumprir um estágio em altitude, nos Estados Unidos, Inês Monteiro está lesionada, Sara Moreira esteve nas maratonas de Roterdão e Paris (desistência em ambas) e Catarina Ribeiro esteve na maratona de Viena (desistência). Restam as jovens Sónia Ferreira e Catarina Guerreiro (nível 5 do PAR, sem subsídio).

Assim, não restaram nomes no feminino para representar Portugal (e, refira-se como nota muito positiva, houve várias com mínimos para a Taça da Europa de 10.000 metros, que se realiza em 6 de julho, em Londres). Já no masculino, todos os nomes possíveis estão fora do PAR e livres de escolher as suas opções desportivas e competitivas.

Calendário competitivo

Finalmente, o calendário competitivo. Antes do Troféu Ibérico, houve três oportunidades em Portugal para corridas de 10.000 metros, desde a mais remota na Madeira (Ribeira Brava), a 23 de março, passando pelos regionais de Porto e Braga, na Maia (30 de março) e fechando nos regionais de Lisboa, a 6 de abril.

Agora fiquemos com uma pequena tabela dos resultados desde 2015. Em femininos, a primeira coluna é de atletas até 33 minutos, a segunda é quantas mais houve até 35 minutos. Em masculinos, a primeira até 29.42 minutos (mínimos para a Taça da Europa 2019), a segunda, quantos mais até 30 minutos, e a terceira, quantos mais até 31 minutos. Note-se a subida acentuada de resultados masculinos (na base, não no topo) registada em 2018, ao invés do declínio feminino.